Destino palavra – análise crítica (1)

O VIAJANTE ADALBERTO DE QUEIROZ:
“DESTINO PALAVRA”

                                                                                                                   Por Ercília Macedo-Eckel*

Esse menestrel é um “caminhante” atrás do conhecimento, do Verbo, do eixo do universo, como Dante Alighieri (Virgílio e Beatriz), na Divina Comédia, ou como Miguel de Cervantes, na citação de Dom Quixote, em que se misturam o real e o imaginário. Predominantemente, porém, o poeta em Adalberto busca o concreto (material) e o abstrato (espiritual), a verdade. E, algumas vezes, o sonho: nu desde sempre e já no Paraíso – com os olhos da alma nos vemos e, quanto mais nus, mais nós mesmos  (p.24). “Eis-me aqui” (…) “porque só há eu e tu” (p.28). Segundo C.D.A. essa viagem (da nudez) para dentro de nós mesmos é a mais difícil das viagens.

         Entretanto o poeta quer retornar a si mesmo, quer de volta tudo o que lhe aconteceu de Cádiz à Vila Jaiara, da Vila Jaiara aos caminhos de hoje. E quer para a frente tudo o que ainda lhe poderá acontecer. Seu destino é aceitar a identidade entre o eu e a situação do mundo. Refiro-me ao “amor fati” de Nietzsche – da grandeza do homem de retornar-se a si mesmo. Refiro-me também à repetição do ser-aí que já foi, de Heidegger. E como o poeta faz ou fará isso? Por meio da palavra ( do logos, do Verbo) que é a manifestação da inteligência, da luz ou das trevas do ser. Sem palavra não há conversa, não há texto, nem criação: Fiat lux! 

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Ercília Macedo-Eckel durante o lançamento de Destino Palavra, Ube, 

         A primeira palavra: Passado. “Viajante cá foi feito mago de Oz” (p. 13). “Sou o que vi – / um pobre diabo da Vila Jaiara// Eu sou esse menino no corpo do velho d’agora (…), sonhando palácios da lua, luando neon multicor” (p. 15). Porém o Tejo desse garoto são o ribeirão João Leite e o córrego Botafogo.

         Em sua viagem poética, aqui e ali, há uma “gare” de metapoesia (p. 18, 25, 29-30, 50, 51, 62). É a poesia falando da própria poesia e de seu mister, no qual poeta/escritor e leitor estão em “similar mistério”: “O que lê pode ser da escrita/ a parteira consciência (p. 25). Vez ou outra a poesia faz as malas e foge, que nem “Albertina a fugitiva”, e diz: Fui! E “o mundo fica mais vazio” (p. 18-9). Então o poeta viajante tem sede da água limpa (p. 32); aquela que vivifica, purifica, regenera e restabelece um novo estado e a (re)criação desse bardo que mais adiante se deita com a água para epifania e  ressurreição (p. 60-1).

         A Parte II do opúsculo “Destino Palavra” começa com a Anti-lira dos Cinquent’anos. Uma lira também “sem cordas”, como declara Álvares de Azevedo no prefácio da 1ª edição de sua Lira dos Vinte Anos (1853, postumamente). Nessa Anti-lira impera o grisalho, entre o Bem e o Mal, “o mundo insano” na memória da avó de “noventa e tantos…” (p.37). Azevedo herdara, fundamentado em uma imensidão de leituras (como o poeta Adalberto), o byronismo do poeta britânico, Lord Byron, e o baudelaireanismo do poeta e teórico da arte francesa, Charles Baudelaire. Ambos presentes, apropriados ou intertextualizados, em vários versos de “Destino Palavra”. Entre outras características desses poetas, temos: pessimismo, desilusão e temas sobre morte, ou afastamento da realidade, por intermédio do sonho e da fantasia, além da exposição do conflito poético-existencial.

         Assim, ao final da Anti-lira dos Cinquent’anos, o poeta Adalberto recomenda: “portanto, d’antes que a morte/ mostre as garras: escreva versos” (p. 38). Antes que seja tarde!

         Depois, na janela do navio, esse poeta viajante descansa suas penas, qual “pássaro alado”, entoando seu triste canto, “o corrosivo da memória”, desejoso de singrar o jade imenso dos imortais. Daquela janela, da única paisagem ambicionada, vêm a luz e o sol que ajudam o poeta a vencer as forças sinistras, capazes de fundear-lhe a alma (p. 34-40).

         Dessa forma, nós, bardo e leitores, buscamos a salvação, o domínio das trevas, das águas e do espaço cuja paisagem se dilata em vários sentidos nas páginas seguintes. Destino? Palavra. Emoção de escrever difícil ou claramente uma página repleta de luz, a sede da ausência saciada pela presença do Outro. Ainda que seja o verso alheio (p.49), ressoando em coro, voando pelo espaço do Senhor (p.50), até chegar às perguntas poetadas por Jorge de Lima: _Queres ler o quê? _Entendes tu o que lês? (p. 51-2)

         Então vem a dor do entendimento e da consciência, dor indescritível, “na solidão do ausente”, no fingimento do que não ama, do que não sente, à moda de Camões (p.52 e 57). Ou de Baudelaire: …”dor que sendo alheia/ é também minha e sua, hipócrita leitor, pois tudo não/ passa, meu irmão, meu semelhante/ ‘Débâcle’ de poesia” (p. 58).

         Mas também, como em toda viagem, sói acontecer surpresa. Então a palavra do poeta teve como destino um anti-soneto, melhor dizendo, um metassoneto, com as narinas acima da “massa ignara”, em bem “Traduzir-se” uma parte do poeta daquela outra parte (que) se sabe de repente, gullarmente, “em quatorze versos” (p.62). E, adiante (p. 64-5),  o bardo ora em busca da alma, à caça de tesouros indecifráveis, como quem cata feijão, cabralmente, no garimpo de versos que valem a pena, ou como um cavaleiro, representante restaurativo da poesia do Graal, inspirada na busca moderna do eu. Considere-se, ainda, a decifração entre o bem e o mal, desde o Paraíso, lá no início, até o ingresso nos mistérios da alma de cada filósofo, até os dias de hoje.

         Durante a leitura de Destino Palavra, percebe-se que aquele que fala nos poemas constrói um mosaico de falas poéticas, ao apropriar-se dos versos dos grandes poetas do mundo, bem como dos nacionais e goianos. E, dessa forma, consegue expandir seu mapa de viajante, sua geografia literária para além do cerrado e  savana locais. Pois Adalberto-poeta sabe tudo de viajante, de “caminhante”.  Na Parte I (p. 24, Nu) e na Parte II (p. 75, A Última Palavra), cita Georges Bernanos, escritor e jornalista francês, que se mudou trinta e duas vezes durante a vida e que chegou a se exilar no Brasil.

         Finalmente, percebe-se que o sagrado vence o profano, em vários poemas e na “Última Palavra”, na “gare”, no último ponto da estação, ante a Morte, a “inesperada das gentes”, de Manuel Bandeira (p. 75).

         Esse sagrado poético (p. 22, 23, 32, 64, 69-71, 75) pode surgir gradualmente, ou inesperadamente do mundo profano (feiticeiro) para o sagrado (santo), na busca de equilíbrio, do limite entre o temor e a sabedoria. Saindo, assim, do profano, da glória efêmera, maculada, impura, baixa, para entrar nas energias puras do sagrado, como fizera Santa Teresa de Ávila (com seus êxtases), cantada nas canções espanholas 1 e 2 (p.66-71).

         Porém, para entrar em contato com o divino, é necessário que o viajante se desfaça das vestes antigas, profanas. Melhor seria se ficasse nu, a fim de avizinhar-se do mundo dos deuses, para além da razão: ” só com a visão do Tudo – Nada” (p.70). E fizesse a pergunta: Qual a última palavra a ser dita, ante a “inesperada das gentes”?
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(*) Ercília Macedo-Eckel é Mestra em Letras e Linguística – Literatura Brasileira pela UFG (1994). Autora, entre outros dos seguintes livros: “Um contista goiano” (1968); “Maíra – reescrita e dessacralização do mito” (2000) e “Quarta Dimensão: o tempo da palavra e outros tempos: poemas” (2005). Patrona e titular da cadeira nº 10 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Website de Ercília Macedo-Eckel

         

          

         

         

Nei Duclós (1)

Este poema é uma amostra do livro “Outubro”, de Nei Duclós.
O livro completa 40 anos com uma edição bem cuidada em que estão os poemas originais, escritos todos entre os 20 e 28 anos do poeta.
Gaúcho, nascido em Uruguaiana em 1948, Nei Duclós tem longa carreira como jornalista. O verbete sobre ele em Wikipedia destaca os 17 livros entre digitais e celulose (livros tradicional), além de diversos artigos.
É também crítico de cinema, tendo composto importantes artigos recentes para o Jornal Opção (Goiânia).

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Nei Duclós, poeta e jornalista, celebra os 40 anos de seu primeiro livro “Outubro”, 2016.

Além de ter seus poemas musicados por Muts Weyrauch e Zé Gomes, Nei Duclós – que é colaborador do Opção, teve carreira jornalística de sucesso e lançou 17 títulos, incluindo o formato digital e tradicional (celulose). É um poeta que vale a pena ser lido, sendo “Outubro” um livro em especial que já mostrou a força de sua permanência entre os amantes da boa poesia feita no Brasil.
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Sobre o Autor
Fonte: site consciencia.org – Nei Duclós e Wikipedia
Depois de Outubro em 1975 pelo IEL/ A Nação, vieram No Meio da Rua, em 1979, pela LP&M Editores (com prefácio de Mario Quintana), em 2001 No Mar, Veremos, pela editora Globo (com prefácio de Mario Chamie) e em 2012 Partimos de Manhã (Iel/Corag), todos de poesia. Em 2004 publicou seu primeiro romance, Universo Baldio, pela W11 Editores. Em 2006 lançou O Refúgio do Príncipe – Histórias Sopradas Pelo Vento, pela Editora Empreendedor, de SC. Em ebooks lançou Arraso, Poemas de Amor, Cálida Palavra, Trovador, Verso Esparso e Pampabismo/Enigminas: Conversos. E também Mágico Deserto – Contos Fora de Forma, e Beijo Entre Nuvens, crônicas. E em 2012 o livro impresso Laguna, Obra e Paisagem, pela Editora Expressão. Em 2014 publicou pela Editora Unisinos o livro Todo Filme é Sobre Cinema, ensaios sobre a Sétima Arte.
Tem 17 livros (entre ebooks e impressos) lançados de cronicas, contos, poesias, romance e ensaios. Além de inúmeros textos publicados na imprensa brasileira, sites e blogs e redes sociais. Citações em vários trabalhos acadêmicos, de graduação, mestrado e doutorado. Poemas e contos traduzidos para o italiano pela revista virtual Sagarana, editada em Lucca, e poemas traduzidos para o inglês para a revista Rattapallax, editada em Nova York.
Títulos em destaque: Outubro (1975); Universo Baldio (2004); No Mar, Veremos (2001); No Meio da Rua (1979). Site oficial de Nei Duclós.