Talvez seja este o caso…

Fernando Monteiro_Rascunho Afinal

“Os poetas não precisarão participar dessa rodada de desencanto, pois eles já escrevem para um vazio que não é só o das grandes livrarias grosseiras, com sua girândolas de livros de ocasião com capas brilhantes como catarro em parede. Os poetas, como que abençoados por Deus ou pelo diabo, estão escrevendo para leitores tão escassos (há muitíssimo tempo), que se tornaram monges trapistas da literatura, escrevendo em monastérios transformados nos palácios da mente que os libertam de escrever para quem já não possui o código da Poesia, a tábua de decifração (e salvação) do verso que foi carne, no Princípio etc.
“Enfim, os poetas estão libertados pelo silêncio que os cerca – enquanto aqui se convocam, sim, principalmente os praticantes da ficção, nesta hora “vigésima quinta” por obra e graça, em parte, das editoras voltadas, nos últimos anos, quase exclusivamente para aquilo que passou a se entender como sucessos

(Fernando Monteiro) in Rascunho, maio 2017, p.23.
Literatura Goyaz.png

A respeito de “Descolagens”, poemas de Salomão Sousa (1)

perfil-poeta-salomao_sousaEIS-NOS diante de um pequeno grande livro de um poeta no pleno domínio de seu ofício.
Importa começar pelo título. Sabe-se que “des·co·la·gem (descolar + -agem) é substantivo feminino. 1. .Ato ou efeito de descolar o que estava colado. = DESCOLAMENTOCOLAR. 2. [Portugal]  .Ato ou efeito de descolar (o avião). (Equivalente no português de Portugal: decolagem.).ATERRISSAGEM. Outra pista vem da capa assinada por Carlos Alberto,  criada sobre foto de Zenilton Gayoso – clicada em Mambaí (GO) registrando uma casca de inburana que se descola. 

Tema dado. Inicia-se a viagem.

1

O navio numa lâmina estática que tremula
por insistência de ser visto de um ponto degradado
Ser inútil como um navio nesta estática
sem nada para entregar no ponto de chegada
se não se abarrotou no ponto de partida.

 

A imagem das flores do ingazeiro e da malva dão a medida do vazio que essa “descolagem” inicial indica ao leitor um rumo do que tem “rápida queda/pelo instinto de existir” – a poesia que se colherá a seguir:

4
Navio ancorado num porto
vazio / para que saiam iludidos
os que aguardam descarregadores.

O segundo poema é um longo poema discursivo a partir do título “Inicialmente, a chuva cai sobre uma pedra”. Então, o poeta se levanta em meio à chuva para anunciar a exaustão e a impotência:

“…não há como
contornar a fronteira para ser útil a uma pátria,
ou ligar o fusível da claridade da estação.”

O poeta – ele mesmo se declara em busca de uma poesia que “espelhe o mundo da fragmentação e da diluição do acúmulo do tóxico“. Espelhar o mundo é o desejo de toda a boa poesia. A imitação da realidade, a criação de um “espelho” em que o leitor possa enxergar este mundo que o poeta enxerga é o cimo da criação literária. Se o autor sai dessa tarefa com maior ou menor grau de êxito cabe apenas ao leitor dizê-lo. Há umas certas instâncias de validação e de confirmação do rito próprio de uma época, mas só o leitor – quando os temos para a poesia, é o grande árbitro.

Ora, sabe-se que no Brasil, para usar a expressão poética de Wislawa Szymborska² (1923-2012) – somos “dois em mil” os que lemos poesia e gostamos de ler poesia (leia o poema da poetisa prêmio Nobel de 1996, ao final deste post) – falta-nos a ousadia de dizer poemas em públicos, faltam certames, incentivos que não os de governo e outras iniciativas mais que façam a poesia parte natural do dia-a-dia da população.

Um livro, pois, como este – que eleva a mais de uma dezena os éditos do autor (ver bibliografia¹) merece por parte de todos os poetas, críticos (se ainda existem!) e leitores em geral a mais sincera e franca acolhida. capa-livro-descolagens_salomao-sousa

Consciente do que quer, Salomão vai “descolando” o que pode para nos mostrar sua capacidade de interpretar o real e dele partir para o “despegue” – donde os poemas traduzidos por parceiros do poeta goiano, dão o tom de voo alto (ou navegação a alto mar) e para além dos limites do centro-oeste brasileiro, onde o autor milita (Brasília, como residência; Goiás  como terra de origem).

O poeta Salomão Sousa exerce em “Descolagens” a razão poética – como a definiu J.G.Merquior recorrendo a um poeta para fazê-lo: “Reason in her most exalted mood” (Woodsworth); isto é, peleja para “dominar o sentimento e a fantasia” em versos de uma dicção própria. E o ofício da poesia não dá tréguas; é preciso que “o faroleiro” exerça a talvez única “razão possível” – a razão poética – como em “Ainda que não venha nenhum barco (p.34)”:

 

Ainda que não venha nenhum barco
e bruma alguma traga a carga de lenha
Ainda que o barqueiro venha louco
e todo o aço da certeza afundará
Ainda que o vento atormente com fúria
e vá a madeira polida afundar-se
Ainda que a carga seja a lâmina
com o colo certo de degolar
Ainda que na porta anunciem
que a florada do dia irá murchar-se
Ainda que seja um vasto mar
e a alma em deleite vá secar-se
Ainda que o mar seja uma rocha
e no deserto o coração vá navegar

Ainda assim o faroleiro acenderá.

Essa nímia esperança é o que parece afastar da vivência urbana do poeta o “Temor de viver só numa fotografia” (p.29), donde se depreendem os fiapos da deterioração do real:

“temor de viver só numa fotografia
articulada/crestada com artifícios
não ter passado por uma bruma
por um dorso/pelas arcadas da avenida
por onde anda a sensatez/ser arco
inflexível a atirar ao acaso
o medo de um vizinho ruidoso/cheio
de espuma das noites bêbadas
sem a tez do suor/as mãos que saúdam
que não articulem os gestos da degola”
(…)
“outra vez o temor/outra vez o ridículo

e se alguém vai estar morto/outra vez
na forca de uma cela o novo herói.”

No entanto, “Ainda que não venha nenhum barco”, o poeta “navega”:

Navego e o mundo é só onde estou

Navego e o mundo é só onde estou
Dizem que há nortes com flores e flautas
Dizem que há largos portos,
o prumo nas mãos dos nautas.
(…)
Navego num mundo sem prumo e sem nauta.”
(p.35).

E entre “o imaginário de ontem e as mazelas do presente” (como diz José Fernandes, no posfácio – citando o artesanato do poema “Ulisses”, p.21/2), segue o bardo Salomão Sousa afirmando sua razão poética:

“E a palavra de hoje é só para marcar
a presença num barranco/num corte
sobrevoado de insetos. Demarcar
a existência da palmeira no preenchimento
de um vão da colina. A incompreensão
que nos persegue ainda que seja fértil e útil.”
(p.43).

Das página 75 a 83, o leitor encontrará oito poemas traduzidos ao espanhol.

Ao leitor deste blog, recomendo a leitura, sublinhando que essa primeira aproximação de “Descolagens” tem o caráter provisório de admiração e respeito por um poeta e uma poesia que, diferente da minha em quase tudo, ainda assim faz-me navegar com simpatia e com prazer, porque admito com o mestre Antônio C. Villaça – em carta ao autor nos anos 80 que a poesia de Salomão Sousa continua sendo:
“…um poeta integrado na angústia e na procura de sua geração, atento à vida e seus apelos fundamentais…lutou e luta para afirmar-se na sua inteira dignidade, tem de fato um compromisso com o homem.”.
∴◊∴


Fontes: 
SOUSA, Salomão. Descolagens. Salomão Sousa. – Goiânia: Kelps, 2016, 92 p.
Priberam – “descolagem”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/descolagem [consultado em 29-01-2017].
Citações complemetares ao texto:
1. Bibliografia de Salomão Sousa: A moenda dos dias, 1979, DF; A moenda dos dias/O susto de viver, Ed. Civilização Brasileira 1980; Falo, 1986, DF; Criação de lodo, 1993, DF; Caderno de desapontamentos, 1994, DF; Estoque de relâmpagos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, 2002, DF; Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, Ed. 7Letras, 2006; Safra quebrada, FAC, 2007. Publicou em 2008, com recursos do FAC, o livro Momento Crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos.

² O poema de Wislawa Szymborska – Alguns gostam de poesia* 
Alguns –
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia –
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Faço-os.
./.
Por Wislawa Szymborska (1923-2012)/*Tradução de Regina Przybycien

Destino palavra – análise crítica (1)

O VIAJANTE ADALBERTO DE QUEIROZ:
“DESTINO PALAVRA”

                                                                                                                   Por Ercília Macedo-Eckel*

Esse menestrel é um “caminhante” atrás do conhecimento, do Verbo, do eixo do universo, como Dante Alighieri (Virgílio e Beatriz), na Divina Comédia, ou como Miguel de Cervantes, na citação de Dom Quixote, em que se misturam o real e o imaginário. Predominantemente, porém, o poeta em Adalberto busca o concreto (material) e o abstrato (espiritual), a verdade. E, algumas vezes, o sonho: nu desde sempre e já no Paraíso – com os olhos da alma nos vemos e, quanto mais nus, mais nós mesmos  (p.24). “Eis-me aqui” (…) “porque só há eu e tu” (p.28). Segundo C.D.A. essa viagem (da nudez) para dentro de nós mesmos é a mais difícil das viagens.

         Entretanto o poeta quer retornar a si mesmo, quer de volta tudo o que lhe aconteceu de Cádiz à Vila Jaiara, da Vila Jaiara aos caminhos de hoje. E quer para a frente tudo o que ainda lhe poderá acontecer. Seu destino é aceitar a identidade entre o eu e a situação do mundo. Refiro-me ao “amor fati” de Nietzsche – da grandeza do homem de retornar-se a si mesmo. Refiro-me também à repetição do ser-aí que já foi, de Heidegger. E como o poeta faz ou fará isso? Por meio da palavra ( do logos, do Verbo) que é a manifestação da inteligência, da luz ou das trevas do ser. Sem palavra não há conversa, não há texto, nem criação: Fiat lux! 

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Ercília Macedo-Eckel durante o lançamento de Destino Palavra, Ube, 

         A primeira palavra: Passado. “Viajante cá foi feito mago de Oz” (p. 13). “Sou o que vi – / um pobre diabo da Vila Jaiara// Eu sou esse menino no corpo do velho d’agora (…), sonhando palácios da lua, luando neon multicor” (p. 15). Porém o Tejo desse garoto são o ribeirão João Leite e o córrego Botafogo.

         Em sua viagem poética, aqui e ali, há uma “gare” de metapoesia (p. 18, 25, 29-30, 50, 51, 62). É a poesia falando da própria poesia e de seu mister, no qual poeta/escritor e leitor estão em “similar mistério”: “O que lê pode ser da escrita/ a parteira consciência (p. 25). Vez ou outra a poesia faz as malas e foge, que nem “Albertina a fugitiva”, e diz: Fui! E “o mundo fica mais vazio” (p. 18-9). Então o poeta viajante tem sede da água limpa (p. 32); aquela que vivifica, purifica, regenera e restabelece um novo estado e a (re)criação desse bardo que mais adiante se deita com a água para epifania e  ressurreição (p. 60-1).

         A Parte II do opúsculo “Destino Palavra” começa com a Anti-lira dos Cinquent’anos. Uma lira também “sem cordas”, como declara Álvares de Azevedo no prefácio da 1ª edição de sua Lira dos Vinte Anos (1853, postumamente). Nessa Anti-lira impera o grisalho, entre o Bem e o Mal, “o mundo insano” na memória da avó de “noventa e tantos…” (p.37). Azevedo herdara, fundamentado em uma imensidão de leituras (como o poeta Adalberto), o byronismo do poeta britânico, Lord Byron, e o baudelaireanismo do poeta e teórico da arte francesa, Charles Baudelaire. Ambos presentes, apropriados ou intertextualizados, em vários versos de “Destino Palavra”. Entre outras características desses poetas, temos: pessimismo, desilusão e temas sobre morte, ou afastamento da realidade, por intermédio do sonho e da fantasia, além da exposição do conflito poético-existencial.

         Assim, ao final da Anti-lira dos Cinquent’anos, o poeta Adalberto recomenda: “portanto, d’antes que a morte/ mostre as garras: escreva versos” (p. 38). Antes que seja tarde!

         Depois, na janela do navio, esse poeta viajante descansa suas penas, qual “pássaro alado”, entoando seu triste canto, “o corrosivo da memória”, desejoso de singrar o jade imenso dos imortais. Daquela janela, da única paisagem ambicionada, vêm a luz e o sol que ajudam o poeta a vencer as forças sinistras, capazes de fundear-lhe a alma (p. 34-40).

         Dessa forma, nós, bardo e leitores, buscamos a salvação, o domínio das trevas, das águas e do espaço cuja paisagem se dilata em vários sentidos nas páginas seguintes. Destino? Palavra. Emoção de escrever difícil ou claramente uma página repleta de luz, a sede da ausência saciada pela presença do Outro. Ainda que seja o verso alheio (p.49), ressoando em coro, voando pelo espaço do Senhor (p.50), até chegar às perguntas poetadas por Jorge de Lima: _Queres ler o quê? _Entendes tu o que lês? (p. 51-2)

         Então vem a dor do entendimento e da consciência, dor indescritível, “na solidão do ausente”, no fingimento do que não ama, do que não sente, à moda de Camões (p.52 e 57). Ou de Baudelaire: …”dor que sendo alheia/ é também minha e sua, hipócrita leitor, pois tudo não/ passa, meu irmão, meu semelhante/ ‘Débâcle’ de poesia” (p. 58).

         Mas também, como em toda viagem, sói acontecer surpresa. Então a palavra do poeta teve como destino um anti-soneto, melhor dizendo, um metassoneto, com as narinas acima da “massa ignara”, em bem “Traduzir-se” uma parte do poeta daquela outra parte (que) se sabe de repente, gullarmente, “em quatorze versos” (p.62). E, adiante (p. 64-5),  o bardo ora em busca da alma, à caça de tesouros indecifráveis, como quem cata feijão, cabralmente, no garimpo de versos que valem a pena, ou como um cavaleiro, representante restaurativo da poesia do Graal, inspirada na busca moderna do eu. Considere-se, ainda, a decifração entre o bem e o mal, desde o Paraíso, lá no início, até o ingresso nos mistérios da alma de cada filósofo, até os dias de hoje.

         Durante a leitura de Destino Palavra, percebe-se que aquele que fala nos poemas constrói um mosaico de falas poéticas, ao apropriar-se dos versos dos grandes poetas do mundo, bem como dos nacionais e goianos. E, dessa forma, consegue expandir seu mapa de viajante, sua geografia literária para além do cerrado e  savana locais. Pois Adalberto-poeta sabe tudo de viajante, de “caminhante”.  Na Parte I (p. 24, Nu) e na Parte II (p. 75, A Última Palavra), cita Georges Bernanos, escritor e jornalista francês, que se mudou trinta e duas vezes durante a vida e que chegou a se exilar no Brasil.

         Finalmente, percebe-se que o sagrado vence o profano, em vários poemas e na “Última Palavra”, na “gare”, no último ponto da estação, ante a Morte, a “inesperada das gentes”, de Manuel Bandeira (p. 75).

         Esse sagrado poético (p. 22, 23, 32, 64, 69-71, 75) pode surgir gradualmente, ou inesperadamente do mundo profano (feiticeiro) para o sagrado (santo), na busca de equilíbrio, do limite entre o temor e a sabedoria. Saindo, assim, do profano, da glória efêmera, maculada, impura, baixa, para entrar nas energias puras do sagrado, como fizera Santa Teresa de Ávila (com seus êxtases), cantada nas canções espanholas 1 e 2 (p.66-71).

         Porém, para entrar em contato com o divino, é necessário que o viajante se desfaça das vestes antigas, profanas. Melhor seria se ficasse nu, a fim de avizinhar-se do mundo dos deuses, para além da razão: ” só com a visão do Tudo – Nada” (p.70). E fizesse a pergunta: Qual a última palavra a ser dita, ante a “inesperada das gentes”?
./.

(*) Ercília Macedo-Eckel é Mestra em Letras e Linguística – Literatura Brasileira pela UFG (1994). Autora, entre outros dos seguintes livros: “Um contista goiano” (1968); “Maíra – reescrita e dessacralização do mito” (2000) e “Quarta Dimensão: o tempo da palavra e outros tempos: poemas” (2005). Patrona e titular da cadeira nº 10 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Website de Ercília Macedo-Eckel

         

          

         

         

Nei Duclós (1)

Este poema é uma amostra do livro “Outubro”, de Nei Duclós.
O livro completa 40 anos com uma edição bem cuidada em que estão os poemas originais, escritos todos entre os 20 e 28 anos do poeta.
Gaúcho, nascido em Uruguaiana em 1948, Nei Duclós tem longa carreira como jornalista. O verbete sobre ele em Wikipedia destaca os 17 livros entre digitais e celulose (livros tradicional), além de diversos artigos.
É também crítico de cinema, tendo composto importantes artigos recentes para o Jornal Opção (Goiânia).

nei-duclos_2016
Nei Duclós, poeta e jornalista, celebra os 40 anos de seu primeiro livro “Outubro”, 2016.

Além de ter seus poemas musicados por Muts Weyrauch e Zé Gomes, Nei Duclós – que é colaborador do Opção, teve carreira jornalística de sucesso e lançou 17 títulos, incluindo o formato digital e tradicional (celulose). É um poeta que vale a pena ser lido, sendo “Outubro” um livro em especial que já mostrou a força de sua permanência entre os amantes da boa poesia feita no Brasil.
—–
Sobre o Autor
Fonte: site consciencia.org – Nei Duclós e Wikipedia
Depois de Outubro em 1975 pelo IEL/ A Nação, vieram No Meio da Rua, em 1979, pela LP&M Editores (com prefácio de Mario Quintana), em 2001 No Mar, Veremos, pela editora Globo (com prefácio de Mario Chamie) e em 2012 Partimos de Manhã (Iel/Corag), todos de poesia. Em 2004 publicou seu primeiro romance, Universo Baldio, pela W11 Editores. Em 2006 lançou O Refúgio do Príncipe – Histórias Sopradas Pelo Vento, pela Editora Empreendedor, de SC. Em ebooks lançou Arraso, Poemas de Amor, Cálida Palavra, Trovador, Verso Esparso e Pampabismo/Enigminas: Conversos. E também Mágico Deserto – Contos Fora de Forma, e Beijo Entre Nuvens, crônicas. E em 2012 o livro impresso Laguna, Obra e Paisagem, pela Editora Expressão. Em 2014 publicou pela Editora Unisinos o livro Todo Filme é Sobre Cinema, ensaios sobre a Sétima Arte.
Tem 17 livros (entre ebooks e impressos) lançados de cronicas, contos, poesias, romance e ensaios. Além de inúmeros textos publicados na imprensa brasileira, sites e blogs e redes sociais. Citações em vários trabalhos acadêmicos, de graduação, mestrado e doutorado. Poemas e contos traduzidos para o italiano pela revista virtual Sagarana, editada em Lucca, e poemas traduzidos para o inglês para a revista Rattapallax, editada em Nova York.
Títulos em destaque: Outubro (1975); Universo Baldio (2004); No Mar, Veremos (2001); No Meio da Rua (1979). Site oficial de Nei Duclós.

Vermelho, poemas

O Ver
     me
lho – de Dairan Lima

e eu.

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Um escambo no dia do lançamento de “Destino palavra” trouxe-me esta jóia e proporciona-me uma leitura encantatória: “Vermelho“, de Dairan Lima – que veio com a dedicatória generosa: “Ao Adalberto, com Afeto e respeito”. Feliz por receber Dairan ainda molhada da chuvinha que brindou o lançamento de meu livro, trocamos livros e olhares poéticos.
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Elogiável trabalho de edição conforme ficha técnica abaixo. Um viva à poetisa e à editora.
Da “Biografia com ficção”, assinada pela editora Larissa, tomamos conhecimento que “Dairan é como um surto” e que “sua (dela) trajetória é improvável”. Amiga de Yêda Schmaltz, a poetisa traz na legenda de “Vermelho” um trecho de “Alquimia dos nós, 1979”:

“Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos” (Y.S.)

O fato de Yêda ter sido amiga da poetisa, faz-nos supor que a editora está certa que “viva, Yêda faria o prefácio de Vermelho”. Fora das conjecturas sobrenaturais, vamos ao natural da poesia de Dairan.
Filia-se a Yêda e “surpassa” em poder de síntese. São poemas curtos, rascantes, em que o ímpeto do erótico é contido pelo bisturi da razão. Qual razão, pergunto-me enquanto releio o pequeno grande livro de Dairan?
As razões do coração. O Vermelho do coração se expõe por uma janela quase racional, diria até que flui feito o sangue não faz menção. Só circula na expressão do erótico – como em “O cio e a espera”, p.20:

IV
“Não sei em que sonho
figura meu castelo
desfalcado,
seduzido
por um exército
estranhamente erótico”

E porque o erótico é território em que uma batalha pode fazer perder o que luta com as palavras (em luta vã – como se sabe, desde CDA), Dairan deixa seu verso sempre a alertar o leitor: “en garde!” pois o próximo golpe virá em breve.
E por que o erótico há de interessar a um leitor conservador e cristão? O mais fácil seria citar o quase lugar-comum: “porque tudo que é humano me interessa”, mas ouso mais:
– Não fosse humano e não o fosse artístico, atiraria o vermelho à vala comum dos que não entenderam a diferença entre John Donne e o Boca-do-inferno…
Dairan Lima sabe seu caminho de “surto e de trajetória improvável”. O domínio do fio em que se deve cruzar o desfiladeiro está claro em “Vermelho” ou “Ver-me-lho”. Vê-nos a poetisa com os olhos do avesso do místico, mas é quase pudica – mesmo quando se expõe (musa-modelo) – ei-la no Encontro, p.26:

VII
“Deixo tua língua
rabiscar meu corpo,
recriando essa geometria.”
capa-vermelho_dairanlima
Sabe a amante da arte, da poesia de Camões e do bardo inglês Shakespeare que a língua se faz e com ela (não) se brinca, portanto, dá-se o direito de “criar asas enormes” (p.27), de “enfeitar-me com as rendas/mais caras e finas“. Ei-la, Dairan, enfeitada para desvendar o erótico na cosmogonia cristã:

XXXVI
Enfeitaram-me com as rendas
mais caras e finas
e disseram-me
-Vai, Eva, padecer no paraíso.

Dairan, esta amável filha de Eva, sabe aguardar “trêmula./Não sei como me portar,/como se fosse pecado/te esperar/para o chá de hoje à tarde.” A poetisa avança pelo seu “castelo interior” (como Santa Teresa d’Ávila) – plena de mistérios, e desnuda-se com tal arte que só um rude leitor colocar-se-ia na pele do personagem de “O Encontro”, p.28.

“IX
– Quando for embora daqui,
quero um presente teu.
– Vou te dar uma poesia!
– Que é isso, moça,
eu lá sou homem de poesias?”

O leitor atento dirá: quero “teu presente, Dairan!” – mesmo em leitura rápida (e apaixonada como esta); o amante da Poesia saberá que é possível o anti-surto através da poesia: sim, é possível curar-se, superar-se, organizar a realidade, quando aparentemente esta nos faz rodopiar num redemoinho de emoções.
O leitor saberá ver na poetisa mais do que “as leoas sem dentes” (p.70) e terá olhos para a mulher de
XXVIII

A mulher
que saltou
do meu sonho ontem
é a mais forte. (…)

Eis-me, Dairan, teu leitor embevecido a deliciar-me com o “o castelo pretérito” que a você desnuda neste pequeno grande livro que veio Ver-me-lho!.
Evoé, Dairan.
+++++
Fonte: LIMA, Dairan. “Vermelho”, ilustr.Marlan Cotrim, 1a.ed., Goiânia, 2016, 80 p./Ficha técnica do livro: Uma edição primorosa que pode ser adquirida no link do site de: Nega Lilu Editora – Larissa Mundim, capa em Viscose – projeto gráfico de Luana Santa Brígida, produção gráfica Carlos Sena.

Destino Palavra – em lançamento

Venha celebrar a poesia na próxima 3a.-feira, 18/10, a partir das 19 horas, na Ube/Seção Goiás, Rua 21, nr. 262, próx. ao Lyceu de Goiânia (GO).

Participe do lançamento do meu novo livro de poesia – “Destino Palavra”, na Ube Goiás.
Link para o vídeo de apresentação do livro.
http://www.youtube.com/watch?v=5RFWL0f6R8Y

Emily Dickinson, P. Henriques Britto e o leitor

P.H.Britto & Emily Dickinson (Parte II).

Leveza e Esperança

Um poema de Emily Dickinson e duas traduções de Paulo Henriques Britto (2)

NO POST anterior, trouxemos o original do poema #185 (da coletânea de poemas de Emily Dickinson, por Johnson*) e duas traduções de Paulo Henriques Britto.

Nosso desafio ao leitor era o de escolher entre “A” e “B”.

O tradutor o fez. Saiba como, lendo antes o processo que levou Britto às duas versões citadas. As anotações estão no livro “A tradução literária”, da editora Civilização Brasileira, 1ª. ed., 2012.

Inicialmente, Britto constata que “no campo da tradução, poucos temas têm sido tão discutidos, e têm levado à adoção de posturas tão radicalmente opostas, quanto a tradução de poesia”. E por quê?
Embora o interesse teórico seja “inversamente  proporcional ao volume de traduções de poesia efetivamente publicadas”, Britto alinha algumas verdades sobre o contexto brasileiro:

i. “Num extremo, temos aqueles que defendem a absoluta impossibilidade de se…

Ver o post original 863 mais palavras

Yêda Schmaltz (1941-2003)

ESTAVA PENSANDO EM ESCREVER SOBRE VOCÊ …

quando me veio a idéia (não adoto o Acordo recente da ortografia no país, como outras tantas regras que espero facilitem a você entender-me do Éter em que nos observa) de escrever p’ra Você, Yêda.

Dileta Yêda:

O Anatole (Ramos), ainda ele, meu padrinho lítero-cultural por primeiro, tendo já me apresentado ao Brasigóis, tentou fazê-lo ao Gilberto, conforme ele, GMT registrou no livro “A Poesia em Goiás”, página 17, edição de 1983. Era eu o jovem poeta “semi-radicado em Porto Alegre que precisava falar da sua [nossa] gente goiana lá nos pagos …” – no dizer de nosso amigo comum Anatole.

Sim, falava eu de meus ilustres conterrâneos desde aquela época, sempre e de preferência, lendo um poema, após uma breve biografia do(a) escritor(a) em questão no momento. De você, consegui, pois, mais que um livro autografado, obtive a simpatia, a presença intensa, uma feminilidade que quase me atordoava.

Fui falando de você e dos outros goyanos de quem gostava, p’ra toda gente que  encontrei – e a quem quis bem… – desde então, em meu grupo de poetas-amigos lá no Pampa gaúcho. Tínhamos um grupo de escritores que, formalmente, nos encontrávamos no Clube de Cultura, no bairro judeu do Bom Fim, em Porto Alegre. Por ali, passaram o Caio Fernando Abreu e o Moacir Scliar, p’ra ensinar aos moços que fomos o amor às letras, apesar de a polícia também ter se interessado pelas ingênuas imersões do nosso sodalício em torno de “Qorpo Insano” – pequena adaptação do nome do dramaturgo que inspirava a nossa rebeldia juvenil (Qorpo Santo).

Foi nessa época em que você autografou-me seu “O Peixenauta”. Recordo-me de sua pena de ponta porosa: “Para o poeta Adalberto, com o meu abraço e a minha grande amizade”, ’78. Era um dia de férias, que não sei precisar, nem há registro lá; sei que um ano depois o Anatole clamava por um volume de “A Poesia em Goiás”, do Gilberto Mendonça Teles e fazia referências a você nas cartas que trocamos, ao longo de minha temporada em Porto Alegre. YEDA SCHMALTZ7.jpg

Não há, talvez, quem não tenha recebido de seu vizinho no Bairro Feliz o mais fraterno ‘empurrão‘ para a produção literária.
Creio ter lido numa das cartas dele que o mundo ficaria melhor com mais gente escrevendo do que censurando; e olha que o ex-combatente da FEB Anatole não tinha preconceito nenhum com o fato de este poeta manter a família no ofício não de escriba (literato!) mas de escrivão barato da Polícia Federal.

Sondando as almas, o Anatole nos aproximou. Outra era a Dedicatória em
O Peixenauta:

Não aos que amo,
pois já me contêm.
Não a quem quero
e quem quero, quero, quero,
quero tanto bem.

Mas aos que voam,
os meus poemas.
Os que seguem
sendas intermináveis
e caminhos
marítimos,
aéreos,
inimagináveis!

Não aos que amo,
mas aos que voam,
mas aos que amam.

./.

O seu Peixenauta, Yêda, havia ganho um prêmio na cidade de Campinas (SP), mas isso não me impressionava tanto quanto o seu olhar, seus cabelos que pareciam sempre em desalinho – olhar e cabeleira de quem:

YEDA SCHMALTZ4.jpg
Da Forma do Coração: “E todo o amor do mundo/fica muito pequeno/se houver comparação

“Navego nuvens
de asteróides,
me sinto leve
aeronauta,
aéreo nauta,
perdi as velas
por dias, noites,
por entre as algas
feitas de estrelas.”

Então, os anos se foram como “a nau [que] desvela/aerogramas/teleportados/em som de aves:/são leves, leves./

“Tão tortuoso
este caminho
que a nau descreve!
(Amado, escreves?)
Ó nau de sonho,
será que um dia
meus sonhos leves?
Leves meus sonhos?”

Havia lá um poema dedicado ao Aidenor Aires, que à época me parecia inacessível – do alto de sua (dele) jurídica postura, sempre ensimesmado e meditativo – o amigo de Carmo que hoje me indica leituras e sonhos, Yêda:

NETUNO
(Ou: “As formigas metrificadas”) –
[poema que tem um código cifrado entre os poetas amigos]:

“Não falarei nos elefantes
ou nos largos cavalos assombrados:
meu canto se oculta, pequeno
– caixa de música fechada
com gatos agasalhados
e escorpiões anelados. ”

Negava-se você, poetisa, em sua confissão ao Aidenor, àquela altura vivendo “Na estação das aves” – negava-se, você, a chorar as grandes dores:

“Não chorarei as grandes dores
nem os terríveis amores:
estes são de calar e amargar.
– Vou cantando apenas a solidão
dos incapazes de serem grandes,
a solidão dos de antes

“As formigas vão tecendo
versos soltos na ciranda,
na grande folha bordada:
comem na folha a verdura
e sobra-lhes a envergadura
– resto de peixe esfolado.”

Já havia Yêda Oscarlina Schmaltz passado pelo Grupo de Escritores Novos (GEN), como uma das fundadoras. Já havia em sua, Yêda, biografia: “Caminhos de mim”, “Tempo de semear”, “Secreta ária” quando li seu Peixenauta.

Por desconsiderar prêmios (e eles foram muitos em sua existência, Yêda), não os listei mentalmente (tampouco o faço agora!) pois de nada valeriam p’ra me fazer querer bem ou mal a sua poesia. Eu quero bem a você e boa parte de sua poesia pela essência do que são (foram), sabendo eu que nossos caminhos tomaram rumos diferentes – fui eu ganhar a vida como comerciante, enquanto você se dedicava inteiramente não ao Direito e sim às Artes e à Poesia.

YEDA SCHMALTZ2
Que estou fazendo no mundo/com este nome alemão, este ar desconfiado/e essa cara de quem/ vê cara, não vê coração?”(Y.Schmaltz, Amor de Poeta, 1990)

Outro dia, vi o quadro de sua face na União Brasileira de Escritores, foi quando decidi escrever uns versos em sua memória. São uns versos experimentais que falam da experiência havida entre o menino-jovem que fui, e que teve a graça de enxergar em seus olhos um dia a chama de Poetisa; eu que, entre outro olhos, pelos teus vislumbrei um mundo do avesso – com uma vontade de banhar-se na “Chuva de Ouro” de seus versos. Eu, o que tomou uma

“Êta chuvaiada doida, doidivanas…” de Poesia. 

Quando comecei a escrever em blogs, em 2002, escrevi este post p’ra você em 11/02/2002:

A causa do dia: Poesia para todos!
Amostra do que me encantou nos últimos dias:
Yêda Schmaltz em Chuva de Ouro, ed.UFG, 2000.
pág.43.

(Chuva de Poesia I)

Está caindo uma chuva de poesia na minha horta.

A poesia está batendo na porta, Carlos,

e pulando pela janela;

a poesia está me afogando em poesia.

Tem uma chusma de poesia no banheiro

e uma alca/teia na esquina.

A poesia parece o Nascimento de Vênus:

saiu nadando da piscina.

A poesia não deixa por pouco;

a poesia não deixa por menos: nobiscum mutambas est,

ou melhor dizendo, com “ela”, é no pau da

/mandioca,

no pau da goiabeira. Meu deus, ela não pode fazer

isto comigo! Caí em decúbito dor-

sal.

A poesia parece nuvem de gafanhoto,

horda de guerreiros.

Está caindo uma horta de poesia na minha chuva;

ela é Pessoa restrita mas não se endireita:

quando cai, é sempre oblíqua e me leva con-

sigo.

Eu te dou, em troca, Yêda “uma kombi cheia de poesia“.

Eis-me, aqui, a tracejar essas notas e a recitar-te, Yêda! (prefiro dizer Poesia Falada), para que mais gente queira bem a seus versos e a você, poetisa amada!

YÊDA (Oscarlina) Schmaltz, você nasceu no Tigipió (PE), mas cedo foi trazida p’ra Goyaz já o sabemos. Fez aqui sua história, escreveu seus versos, ensinou teoria literária, estética, história da arte e sociologia. Traçou seus “Caminhos de mim”, ganhou diversos prêmios, medalhas, títulos, diplomas e distinções, incluindo os prêmios Simón Bolívar (Fondi) na Itália (1998) e Alejandro J. Cabassa (Ube/RJ). Dos prêmios locais, Yêda, você foi laureada com o José Décio (1990), o do saudoso Beg (1993, 94, 96 e 1997), o Cora Coralina (1996).

(*)Prêmios e menções honrosas da autora estão melhor elencados ao final do livro “Chuva de Ouro”, Nota Bio-bibliográfica, p.169-172. A ilustração em destaque é um bico-de-pena de Roos (Roosevelt de Oliveira), 1975. Para uma fortuna crítica da obra de Yêda Schmaltz, siga este link – balanço da fortuna crítica, por Paulo Antônio VIEIRA JÚNIOR.
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