Vermelho, poemas

O Ver
     me
lho – de Dairan Lima

e eu.

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Um escambo no dia do lançamento de “Destino palavra” trouxe-me esta jóia e proporciona-me uma leitura encantatória: “Vermelho“, de Dairan Lima – que veio com a dedicatória generosa: “Ao Adalberto, com Afeto e respeito”. Feliz por receber Dairan ainda molhada da chuvinha que brindou o lançamento de meu livro, trocamos livros e olhares poéticos.
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Elogiável trabalho de edição conforme ficha técnica abaixo. Um viva à poetisa e à editora.
Da “Biografia com ficção”, assinada pela editora Larissa, tomamos conhecimento que “Dairan é como um surto” e que “sua (dela) trajetória é improvável”. Amiga de Yêda Schmaltz, a poetisa traz na legenda de “Vermelho” um trecho de “Alquimia dos nós, 1979”:

“Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos” (Y.S.)

O fato de Yêda ter sido amiga da poetisa, faz-nos supor que a editora está certa que “viva, Yêda faria o prefácio de Vermelho”. Fora das conjecturas sobrenaturais, vamos ao natural da poesia de Dairan.
Filia-se a Yêda e “surpassa” em poder de síntese. São poemas curtos, rascantes, em que o ímpeto do erótico é contido pelo bisturi da razão. Qual razão, pergunto-me enquanto releio o pequeno grande livro de Dairan?
As razões do coração. O Vermelho do coração se expõe por uma janela quase racional, diria até que flui feito o sangue não faz menção. Só circula na expressão do erótico – como em “O cio e a espera”, p.20:

IV
“Não sei em que sonho
figura meu castelo
desfalcado,
seduzido
por um exército
estranhamente erótico”

E porque o erótico é território em que uma batalha pode fazer perder o que luta com as palavras (em luta vã – como se sabe, desde CDA), Dairan deixa seu verso sempre a alertar o leitor: “en garde!” pois o próximo golpe virá em breve.
E por que o erótico há de interessar a um leitor conservador e cristão? O mais fácil seria citar o quase lugar-comum: “porque tudo que é humano me interessa”, mas ouso mais:
– Não fosse humano e não o fosse artístico, atiraria o vermelho à vala comum dos que não entenderam a diferença entre John Donne e o Boca-do-inferno…
Dairan Lima sabe seu caminho de “surto e de trajetória improvável”. O domínio do fio em que se deve cruzar o desfiladeiro está claro em “Vermelho” ou “Ver-me-lho”. Vê-nos a poetisa com os olhos do avesso do místico, mas é quase pudica – mesmo quando se expõe (musa-modelo) – ei-la no Encontro, p.26:

VII
“Deixo tua língua
rabiscar meu corpo,
recriando essa geometria.”
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Sabe a amante da arte, da poesia de Camões e do bardo inglês Shakespeare que a língua se faz e com ela (não) se brinca, portanto, dá-se o direito de “criar asas enormes” (p.27), de “enfeitar-me com as rendas/mais caras e finas“. Ei-la, Dairan, enfeitada para desvendar o erótico na cosmogonia cristã:

XXXVI
Enfeitaram-me com as rendas
mais caras e finas
e disseram-me
-Vai, Eva, padecer no paraíso.

Dairan, esta amável filha de Eva, sabe aguardar “trêmula./Não sei como me portar,/como se fosse pecado/te esperar/para o chá de hoje à tarde.” A poetisa avança pelo seu “castelo interior” (como Santa Teresa d’Ávila) – plena de mistérios, e desnuda-se com tal arte que só um rude leitor colocar-se-ia na pele do personagem de “O Encontro”, p.28.

“IX
– Quando for embora daqui,
quero um presente teu.
– Vou te dar uma poesia!
– Que é isso, moça,
eu lá sou homem de poesias?”

O leitor atento dirá: quero “teu presente, Dairan!” – mesmo em leitura rápida (e apaixonada como esta); o amante da Poesia saberá que é possível o anti-surto através da poesia: sim, é possível curar-se, superar-se, organizar a realidade, quando aparentemente esta nos faz rodopiar num redemoinho de emoções.
O leitor saberá ver na poetisa mais do que “as leoas sem dentes” (p.70) e terá olhos para a mulher de
XXVIII

A mulher
que saltou
do meu sonho ontem
é a mais forte. (…)

Eis-me, Dairan, teu leitor embevecido a deliciar-me com o “o castelo pretérito” que a você desnuda neste pequeno grande livro que veio Ver-me-lho!.
Evoé, Dairan.
+++++
Fonte: LIMA, Dairan. “Vermelho”, ilustr.Marlan Cotrim, 1a.ed., Goiânia, 2016, 80 p./Ficha técnica do livro: Uma edição primorosa que pode ser adquirida no link do site de: Nega Lilu Editora – Larissa Mundim, capa em Viscose – projeto gráfico de Luana Santa Brígida, produção gráfica Carlos Sena.

Yêda Schmaltz (1941-2003)

ESTAVA PENSANDO EM ESCREVER SOBRE VOCÊ …

quando me veio a idéia (não adoto o Acordo recente da ortografia no país, como outras tantas regras que espero facilitem a você entender-me do Éter em que nos observa) de escrever p’ra Você, Yêda.

Dileta Yêda:

O Anatole (Ramos), ainda ele, meu padrinho lítero-cultural por primeiro, tendo já me apresentado ao Brasigóis, tentou fazê-lo ao Gilberto, conforme ele, GMT registrou no livro “A Poesia em Goiás”, página 17, edição de 1983. Era eu o jovem poeta “semi-radicado em Porto Alegre que precisava falar da sua [nossa] gente goiana lá nos pagos …” – no dizer de nosso amigo comum Anatole.

Sim, falava eu de meus ilustres conterrâneos desde aquela época, sempre e de preferência, lendo um poema, após uma breve biografia do(a) escritor(a) em questão no momento. De você, consegui, pois, mais que um livro autografado, obtive a simpatia, a presença intensa, uma feminilidade que quase me atordoava.

Fui falando de você e dos outros goyanos de quem gostava, p’ra toda gente que  encontrei – e a quem quis bem… – desde então, em meu grupo de poetas-amigos lá no Pampa gaúcho. Tínhamos um grupo de escritores que, formalmente, nos encontrávamos no Clube de Cultura, no bairro judeu do Bom Fim, em Porto Alegre. Por ali, passaram o Caio Fernando Abreu e o Moacir Scliar, p’ra ensinar aos moços que fomos o amor às letras, apesar de a polícia também ter se interessado pelas ingênuas imersões do nosso sodalício em torno de “Qorpo Insano” – pequena adaptação do nome do dramaturgo que inspirava a nossa rebeldia juvenil (Qorpo Santo).

Foi nessa época em que você autografou-me seu “O Peixenauta”. Recordo-me de sua pena de ponta porosa: “Para o poeta Adalberto, com o meu abraço e a minha grande amizade”, ’78. Era um dia de férias, que não sei precisar, nem há registro lá; sei que um ano depois o Anatole clamava por um volume de “A Poesia em Goiás”, do Gilberto Mendonça Teles e fazia referências a você nas cartas que trocamos, ao longo de minha temporada em Porto Alegre. YEDA SCHMALTZ7.jpg

Não há, talvez, quem não tenha recebido de seu vizinho no Bairro Feliz o mais fraterno ‘empurrão‘ para a produção literária.
Creio ter lido numa das cartas dele que o mundo ficaria melhor com mais gente escrevendo do que censurando; e olha que o ex-combatente da FEB Anatole não tinha preconceito nenhum com o fato de este poeta manter a família no ofício não de escriba (literato!) mas de escrivão barato da Polícia Federal.

Sondando as almas, o Anatole nos aproximou. Outra era a Dedicatória em
O Peixenauta:

Não aos que amo,
pois já me contêm.
Não a quem quero
e quem quero, quero, quero,
quero tanto bem.

Mas aos que voam,
os meus poemas.
Os que seguem
sendas intermináveis
e caminhos
marítimos,
aéreos,
inimagináveis!

Não aos que amo,
mas aos que voam,
mas aos que amam.

./.

O seu Peixenauta, Yêda, havia ganho um prêmio na cidade de Campinas (SP), mas isso não me impressionava tanto quanto o seu olhar, seus cabelos que pareciam sempre em desalinho – olhar e cabeleira de quem:

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Da Forma do Coração: “E todo o amor do mundo/fica muito pequeno/se houver comparação

“Navego nuvens
de asteróides,
me sinto leve
aeronauta,
aéreo nauta,
perdi as velas
por dias, noites,
por entre as algas
feitas de estrelas.”

Então, os anos se foram como “a nau [que] desvela/aerogramas/teleportados/em som de aves:/são leves, leves./

“Tão tortuoso
este caminho
que a nau descreve!
(Amado, escreves?)
Ó nau de sonho,
será que um dia
meus sonhos leves?
Leves meus sonhos?”

Havia lá um poema dedicado ao Aidenor Aires, que à época me parecia inacessível – do alto de sua (dele) jurídica postura, sempre ensimesmado e meditativo – o amigo de Carmo que hoje me indica leituras e sonhos, Yêda:

NETUNO
(Ou: “As formigas metrificadas”) –
[poema que tem um código cifrado entre os poetas amigos]:

“Não falarei nos elefantes
ou nos largos cavalos assombrados:
meu canto se oculta, pequeno
– caixa de música fechada
com gatos agasalhados
e escorpiões anelados. ”

Negava-se você, poetisa, em sua confissão ao Aidenor, àquela altura vivendo “Na estação das aves” – negava-se, você, a chorar as grandes dores:

“Não chorarei as grandes dores
nem os terríveis amores:
estes são de calar e amargar.
– Vou cantando apenas a solidão
dos incapazes de serem grandes,
a solidão dos de antes

“As formigas vão tecendo
versos soltos na ciranda,
na grande folha bordada:
comem na folha a verdura
e sobra-lhes a envergadura
– resto de peixe esfolado.”

Já havia Yêda Oscarlina Schmaltz passado pelo Grupo de Escritores Novos (GEN), como uma das fundadoras. Já havia em sua, Yêda, biografia: “Caminhos de mim”, “Tempo de semear”, “Secreta ária” quando li seu Peixenauta.

Por desconsiderar prêmios (e eles foram muitos em sua existência, Yêda), não os listei mentalmente (tampouco o faço agora!) pois de nada valeriam p’ra me fazer querer bem ou mal a sua poesia. Eu quero bem a você e boa parte de sua poesia pela essência do que são (foram), sabendo eu que nossos caminhos tomaram rumos diferentes – fui eu ganhar a vida como comerciante, enquanto você se dedicava inteiramente não ao Direito e sim às Artes e à Poesia.

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Que estou fazendo no mundo/com este nome alemão, este ar desconfiado/e essa cara de quem/ vê cara, não vê coração?”(Y.Schmaltz, Amor de Poeta, 1990)

Outro dia, vi o quadro de sua face na União Brasileira de Escritores, foi quando decidi escrever uns versos em sua memória. São uns versos experimentais que falam da experiência havida entre o menino-jovem que fui, e que teve a graça de enxergar em seus olhos um dia a chama de Poetisa; eu que, entre outro olhos, pelos teus vislumbrei um mundo do avesso – com uma vontade de banhar-se na “Chuva de Ouro” de seus versos. Eu, o que tomou uma

“Êta chuvaiada doida, doidivanas…” de Poesia. 

Quando comecei a escrever em blogs, em 2002, escrevi este post p’ra você em 11/02/2002:

A causa do dia: Poesia para todos!
Amostra do que me encantou nos últimos dias:
Yêda Schmaltz em Chuva de Ouro, ed.UFG, 2000.
pág.43.

(Chuva de Poesia I)

Está caindo uma chuva de poesia na minha horta.

A poesia está batendo na porta, Carlos,

e pulando pela janela;

a poesia está me afogando em poesia.

Tem uma chusma de poesia no banheiro

e uma alca/teia na esquina.

A poesia parece o Nascimento de Vênus:

saiu nadando da piscina.

A poesia não deixa por pouco;

a poesia não deixa por menos: nobiscum mutambas est,

ou melhor dizendo, com “ela”, é no pau da

/mandioca,

no pau da goiabeira. Meu deus, ela não pode fazer

isto comigo! Caí em decúbito dor-

sal.

A poesia parece nuvem de gafanhoto,

horda de guerreiros.

Está caindo uma horta de poesia na minha chuva;

ela é Pessoa restrita mas não se endireita:

quando cai, é sempre oblíqua e me leva con-

sigo.

Eu te dou, em troca, Yêda “uma kombi cheia de poesia“.

Eis-me, aqui, a tracejar essas notas e a recitar-te, Yêda! (prefiro dizer Poesia Falada), para que mais gente queira bem a seus versos e a você, poetisa amada!

YÊDA (Oscarlina) Schmaltz, você nasceu no Tigipió (PE), mas cedo foi trazida p’ra Goyaz já o sabemos. Fez aqui sua história, escreveu seus versos, ensinou teoria literária, estética, história da arte e sociologia. Traçou seus “Caminhos de mim”, ganhou diversos prêmios, medalhas, títulos, diplomas e distinções, incluindo os prêmios Simón Bolívar (Fondi) na Itália (1998) e Alejandro J. Cabassa (Ube/RJ). Dos prêmios locais, Yêda, você foi laureada com o José Décio (1990), o do saudoso Beg (1993, 94, 96 e 1997), o Cora Coralina (1996).

(*)Prêmios e menções honrosas da autora estão melhor elencados ao final do livro “Chuva de Ouro”, Nota Bio-bibliográfica, p.169-172. A ilustração em destaque é um bico-de-pena de Roos (Roosevelt de Oliveira), 1975. Para uma fortuna crítica da obra de Yêda Schmaltz, siga este link – balanço da fortuna crítica, por Paulo Antônio VIEIRA JÚNIOR.
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