Yêda Schmaltz (1941-2003)

ESTAVA PENSANDO EM ESCREVER SOBRE VOCÊ …

quando me veio a idéia (não adoto o Acordo recente da ortografia no país, como outras tantas regras que espero facilitem a você entender-me do Éter em que nos observa) de escrever p’ra Você, Yêda.

Dileta Yêda:

O Anatole (Ramos), ainda ele, meu padrinho lítero-cultural por primeiro, tendo já me apresentado ao Brasigóis, tentou fazê-lo ao Gilberto, conforme ele, GMT registrou no livro “A Poesia em Goiás”, página 17, edição de 1983. Era eu o jovem poeta “semi-radicado em Porto Alegre que precisava falar da sua [nossa] gente goiana lá nos pagos …” – no dizer de nosso amigo comum Anatole.

Sim, falava eu de meus ilustres conterrâneos desde aquela época, sempre e de preferência, lendo um poema, após uma breve biografia do(a) escritor(a) em questão no momento. De você, consegui, pois, mais que um livro autografado, obtive a simpatia, a presença intensa, uma feminilidade que quase me atordoava.

Fui falando de você e dos outros goyanos de quem gostava, p’ra toda gente que  encontrei – e a quem quis bem… – desde então, em meu grupo de poetas-amigos lá no Pampa gaúcho. Tínhamos um grupo de escritores que, formalmente, nos encontrávamos no Clube de Cultura, no bairro judeu do Bom Fim, em Porto Alegre. Por ali, passaram o Caio Fernando Abreu e o Moacir Scliar, p’ra ensinar aos moços que fomos o amor às letras, apesar de a polícia também ter se interessado pelas ingênuas imersões do nosso sodalício em torno de “Qorpo Insano” – pequena adaptação do nome do dramaturgo que inspirava a nossa rebeldia juvenil (Qorpo Santo).

Foi nessa época em que você autografou-me seu “O Peixenauta”. Recordo-me de sua pena de ponta porosa: “Para o poeta Adalberto, com o meu abraço e a minha grande amizade”, ’78. Era um dia de férias, que não sei precisar, nem há registro lá; sei que um ano depois o Anatole clamava por um volume de “A Poesia em Goiás”, do Gilberto Mendonça Teles e fazia referências a você nas cartas que trocamos, ao longo de minha temporada em Porto Alegre. YEDA SCHMALTZ7.jpg

Não há, talvez, quem não tenha recebido de seu vizinho no Bairro Feliz o mais fraterno ‘empurrão‘ para a produção literária.
Creio ter lido numa das cartas dele que o mundo ficaria melhor com mais gente escrevendo do que censurando; e olha que o ex-combatente da FEB Anatole não tinha preconceito nenhum com o fato de este poeta manter a família no ofício não de escriba (literato!) mas de escrivão barato da Polícia Federal.

Sondando as almas, o Anatole nos aproximou. Outra era a Dedicatória em
O Peixenauta:

Não aos que amo,
pois já me contêm.
Não a quem quero
e quem quero, quero, quero,
quero tanto bem.

Mas aos que voam,
os meus poemas.
Os que seguem
sendas intermináveis
e caminhos
marítimos,
aéreos,
inimagináveis!

Não aos que amo,
mas aos que voam,
mas aos que amam.

./.

O seu Peixenauta, Yêda, havia ganho um prêmio na cidade de Campinas (SP), mas isso não me impressionava tanto quanto o seu olhar, seus cabelos que pareciam sempre em desalinho – olhar e cabeleira de quem:

YEDA SCHMALTZ4.jpg
Da Forma do Coração: “E todo o amor do mundo/fica muito pequeno/se houver comparação

“Navego nuvens
de asteróides,
me sinto leve
aeronauta,
aéreo nauta,
perdi as velas
por dias, noites,
por entre as algas
feitas de estrelas.”

Então, os anos se foram como “a nau [que] desvela/aerogramas/teleportados/em som de aves:/são leves, leves./

“Tão tortuoso
este caminho
que a nau descreve!
(Amado, escreves?)
Ó nau de sonho,
será que um dia
meus sonhos leves?
Leves meus sonhos?”

Havia lá um poema dedicado ao Aidenor Aires, que à época me parecia inacessível – do alto de sua (dele) jurídica postura, sempre ensimesmado e meditativo – o amigo de Carmo que hoje me indica leituras e sonhos, Yêda:

NETUNO
(Ou: “As formigas metrificadas”) –
[poema que tem um código cifrado entre os poetas amigos]:

“Não falarei nos elefantes
ou nos largos cavalos assombrados:
meu canto se oculta, pequeno
– caixa de música fechada
com gatos agasalhados
e escorpiões anelados. ”

Negava-se você, poetisa, em sua confissão ao Aidenor, àquela altura vivendo “Na estação das aves” – negava-se, você, a chorar as grandes dores:

“Não chorarei as grandes dores
nem os terríveis amores:
estes são de calar e amargar.
– Vou cantando apenas a solidão
dos incapazes de serem grandes,
a solidão dos de antes

“As formigas vão tecendo
versos soltos na ciranda,
na grande folha bordada:
comem na folha a verdura
e sobra-lhes a envergadura
– resto de peixe esfolado.”

Já havia Yêda Oscarlina Schmaltz passado pelo Grupo de Escritores Novos (GEN), como uma das fundadoras. Já havia em sua, Yêda, biografia: “Caminhos de mim”, “Tempo de semear”, “Secreta ária” quando li seu Peixenauta.

Por desconsiderar prêmios (e eles foram muitos em sua existência, Yêda), não os listei mentalmente (tampouco o faço agora!) pois de nada valeriam p’ra me fazer querer bem ou mal a sua poesia. Eu quero bem a você e boa parte de sua poesia pela essência do que são (foram), sabendo eu que nossos caminhos tomaram rumos diferentes – fui eu ganhar a vida como comerciante, enquanto você se dedicava inteiramente não ao Direito e sim às Artes e à Poesia.

YEDA SCHMALTZ2
Que estou fazendo no mundo/com este nome alemão, este ar desconfiado/e essa cara de quem/ vê cara, não vê coração?”(Y.Schmaltz, Amor de Poeta, 1990)

Outro dia, vi o quadro de sua face na União Brasileira de Escritores, foi quando decidi escrever uns versos em sua memória. São uns versos experimentais que falam da experiência havida entre o menino-jovem que fui, e que teve a graça de enxergar em seus olhos um dia a chama de Poetisa; eu que, entre outro olhos, pelos teus vislumbrei um mundo do avesso – com uma vontade de banhar-se na “Chuva de Ouro” de seus versos. Eu, o que tomou uma

“Êta chuvaiada doida, doidivanas…” de Poesia. 

Quando comecei a escrever em blogs, em 2002, escrevi este post p’ra você em 11/02/2002:

A causa do dia: Poesia para todos!
Amostra do que me encantou nos últimos dias:
Yêda Schmaltz em Chuva de Ouro, ed.UFG, 2000.
pág.43.

(Chuva de Poesia I)

Está caindo uma chuva de poesia na minha horta.

A poesia está batendo na porta, Carlos,

e pulando pela janela;

a poesia está me afogando em poesia.

Tem uma chusma de poesia no banheiro

e uma alca/teia na esquina.

A poesia parece o Nascimento de Vênus:

saiu nadando da piscina.

A poesia não deixa por pouco;

a poesia não deixa por menos: nobiscum mutambas est,

ou melhor dizendo, com “ela”, é no pau da

/mandioca,

no pau da goiabeira. Meu deus, ela não pode fazer

isto comigo! Caí em decúbito dor-

sal.

A poesia parece nuvem de gafanhoto,

horda de guerreiros.

Está caindo uma horta de poesia na minha chuva;

ela é Pessoa restrita mas não se endireita:

quando cai, é sempre oblíqua e me leva con-

sigo.

Eu te dou, em troca, Yêda “uma kombi cheia de poesia“.

Eis-me, aqui, a tracejar essas notas e a recitar-te, Yêda! (prefiro dizer Poesia Falada), para que mais gente queira bem a seus versos e a você, poetisa amada!

YÊDA (Oscarlina) Schmaltz, você nasceu no Tigipió (PE), mas cedo foi trazida p’ra Goyaz já o sabemos. Fez aqui sua história, escreveu seus versos, ensinou teoria literária, estética, história da arte e sociologia. Traçou seus “Caminhos de mim”, ganhou diversos prêmios, medalhas, títulos, diplomas e distinções, incluindo os prêmios Simón Bolívar (Fondi) na Itália (1998) e Alejandro J. Cabassa (Ube/RJ). Dos prêmios locais, Yêda, você foi laureada com o José Décio (1990), o do saudoso Beg (1993, 94, 96 e 1997), o Cora Coralina (1996).

(*)Prêmios e menções honrosas da autora estão melhor elencados ao final do livro “Chuva de Ouro”, Nota Bio-bibliográfica, p.169-172. A ilustração em destaque é um bico-de-pena de Roos (Roosevelt de Oliveira), 1975. Para uma fortuna crítica da obra de Yêda Schmaltz, siga este link – balanço da fortuna crítica, por Paulo Antônio VIEIRA JÚNIOR.
.ϒ./.

 

 

 

 

 

TAGORE BIRAM (1958-1998)

Notícia sobre TAGORE BIRAM.
********Por Salomão Sousa*.

Tagore Biram era pseudônimo de Ubiratan Moreira, [nome escolhido] em homenagem ao poeta indiano Rabindranath Tagore. Ubiratan Moreira (Tagore Biram) nasceu em 6 de janeiro de 1958, em Olho D´Àgua, antigo distrito de Anicuns (Goiás) e hoje município de Americano do Brasil. Sua estréia literária foi em 1981 com o livro Flauta Noturna. Em 1985, publicou Poemas do Amor e da Ausência e viajou para Moscou, como delegado do Festival Mundial da Juventude. Na União Soviética, participou do Encontro Internacional de Jovens Escritores. Fez recitais e falou sobre o Brasil. Teve poemas seus traduzidos para o russo e publicados em Moscou. Em 1986, criou e presidiu o Comitê Pablo Neruda de Solidariedade ao Povo Chileno. Em 1987, conquistou, em Goiânia, o Prêmio Cora Coralina de Poesia, com o livro O Anjo Desafinado, seu divisor de águas poéticas. Na década de 1990, transferiu-se para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde viveu por vários anos e trabalhou como editor cultural (Caderno B, do Jornal do Brasil Central) e redator-criador em agências de publicidade. Conheceu o poeta pantaneiro Manoel de Barros e dele se tornou amigo.
Em 1996, mudou-se para o Chile e ganhou o prêmio literário Cidade de Concepción, publicou os livros El Enderezador de Vientos e Poesia Pasajera. O poeta rebelde e saudoso de casa faleceu em Tirúa (Chile), em 13 de junho de 1998, dez anos depois da publicação de seu segundo livro, O Anjo Desafinado. Em Campo Grande (MS), o auditório na sede da TV Educativa foi inaugurado com o nome de Tagore Biram. Em Tirúa (Chile) um centro cultural também leva seu nome. Quando morreu em 1998, Tagore Biram deixou, inéditos, os livros, Muro de Berlim e Poemas de Santiago, dos quais, até o momento, não se sabe o paradeiro. (Valdivino Braz).


“Se fosse hoje, eu não teria deixado Tagore Biram cair tão facilmente. Mas nunca conseguimos impedir uma queda, pois, quando vamos notar, a derrota já alcançou a todos nós. Mas a história humana carece de algumas quedas precoces para termos presentes a nossa fragilidade. Também quanto mais intenso o fogo mais rápido o destroçar da madeira. E ele que seria uma renovação total da poesia goiana! Dois livros que editou foram suficientes para deixar um clarão intenso. Dormi uma vez no apartamento dele em Goiânia, e umas duas noites ele passou em minha casa. É do poeta Valdivino Braz — seu mais fiel amigo, tanto em vida como de sua memória — o texto que o apresenta, publicado recentemente no Jornal Opção.
ψ/ψ

De minha parte, conheci o Tagore no início dos anos ’80, do séc. xx. Éramos todos de esquerda – ele mais; todos contestadores – ele mais; éramos todos linguarudos – ele mais; éramos um tantinho desmiolados – ele mais; Tagore sempre arrumava um jeito de entrar numa discussão que, dependendo do teor etílico, era uma equação de n-incógnitas a ser resolvida, até por volta de 5h da matina. Foi sempre gentil comigo, mas sempre me criticou os modos burgueses. Tenho dele uma boa lembrança. Não vi o nariz do poeta morto. Ainda bem, pois, que assim me resta o sorriso generoso que guardo em minha memória, malgrado os rumos diversos que nossas vidas tomaram…

Abaixo, transcrevo dois poemas do poeta morto: Palavra e “El rio Tirúa”, este que se encontra numa página chilena, e do qual não se conhece versão em português. Talvez tenha sido escrito no período final de sua vida, quando ele morava naquele país. (com textos de Salomão Sousa e pequeno molho meu). Uma nota sobre um colega de trabalho, da tempora em Mato Grosso do Sul, vale a pena ser lido para que se confirme que foi o alcoolismo, provavelmente, o que levou à morte um poeta de grande potencial tão jovem (40 anos!). Veja o link para o blog Arquivos Críticos, do RAVEL, colega de jornalismo de Tagore, em JbC, Jornal do Brasil Central, onde o poeta foi Editor.
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A PALAVRA
****Tagore Biram
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De “Flauta Noturna” por Tagore Biram, Fundo de Cultura Goiás -Cerne, 1981, p.71. Ube Goiás

 

 

 


El rio Tirúa
*******Por Tagore Biram*

Qué trágica es la vida de los ríos
Qué trágica es la vida de los manantiales
Con su voz mineral
Llena de peces y piedras
Y también una mirada de esperanza.

Los ríos arrepentidos
Que viajan tantas vueltas entre selvas,
Costas montañosas,
Para volver sin cansancio
A su fuente original.

Y hay ríos tranquilos y sinuosos,
Ríos tranquilos y sinuosos
como serpientes,
silenciosos ríos,
ríos indiferentes a los crímenes de los hombres.

Qué resignada es la vida de estas venas,
Estas venas que sangran a la tierra
Y alimentan de papas los sembrados,
De maíz, amor, vino,
Todos los elementos posibles.

La voz musical de esta agua,
Que el hombre insiste en callar para siempre.

Dicen que hay ríos que se lamentan.
Sí, hay ríos que se lamentan.

He sentido el corazón
Que agota sus últimas lágrimas,
Las últimas de un río sediento.

Estos ríos generosos no se lamentan por sí,
Sino que por sus propios asesinos.

He visto ríos y lagos,
Ríos y lagos cadavéricos,
Ríos que se cansaron de ser ríos,
Ríos que se fueron al exilio,
Ríos que se escondieron bajo la tierra,

Aguas que debieron abandonar a sus hijos.

Sí,
He conocido ríos que volvieron a ser nubes,
Manantiales de aguas que no volvieron nunca más.

Se fueron para siempre estas aguas,
Estas aguas que persisten en los ojos,
Estas aguas, estas aguas.

+++++
(*) Fonte: Educarchile

Amizades e polêmicas: Goiânia, Rússia, Chile…

O poeta Tagore Biram viveu os derradeiros dias de uma curta existência no Chile. Segundo o jornalista e poeta Valdivino Braz, Tagore morreu com 40 anos de idade, em 13 junho de 1998, na cidade de Tirúa, no Chile, país onde ele residia desde 1996.

Como amigo do poeta morto ainda moço, Valdivino num estilo que lhe é próprio escreveu para a Revista Bula quando esta dedicava-se a mais do que entretenimento de massa (e em número de acessos!) um artigo Braziano…Abaixo, alguns trechos e o link da fonte na última linha da transcrição:

Tagore Biram manda lembranças
Por Valdivino Braz

O poema “Prólogo”, de Tagore Biram, publicado — certamente por Carlos Willian, em atendimento à sugestão de Lauro Marques — aqui nos comentários da Bula (edição 204), encontra-se, em russo e português, no livro “O anjo desafinado”, de autoria dele, Tagore. O livro foi o primeiro a ser premiado, em 1987, pela Bolsa de Publicações Cora Coralina, então criada pelo governo de Goiás. Referido poema foi por mim publicado aqui mesmo, na Bula, em 2007, como parte do artigo “Sobre Tagore Biram”, redigido alusivamente aos nove anos de sua morte, ocorrida em 13 junho de 1998, na cidade de Tirúa, no Chile, país onde ele residia desde 1996. O poeta morreu aos 40 anos de idade. Consta que em Tirúa um centro cultural leva seu nome, homenagem de amigos que por lá cultivava.

 
Sabe-se que Tagore deixou no Chile vários amigos, que os tinha também em Goiás, os que o conheciam mais a fundo, assim como tinha os inimigos, muitos dos quais, de público, ele mandava tomar no curió ou então à puta que pariu. Com Tagore não tinha meios-termos. Tirado do sério, quando se sentia ofendido ou humilhado, dava o troco na hora, e proferia seu revide com palavras nuas e cruas, mesmo na presença de distintas e emperucadas madames.  
 
Com o tempo, o poeta amadureceu e refinou um pouco seus modos, tornou-se verbalmente mais comedido, mais sociável no trato com as pessoas, inclusive com os garçons dos botecos — por vezes era meio ríspido com eles, e se melhorou neste aspecto, creio que um pouco foi por instância minha, que sempre o repreendia, lembrando que também fui garçom e sei bem o que é esse negócio de se dizer que o freguês sempre tem razão. Parece que ter deixado Goiânia o beneficiou neste sentido da amabilidade. Mudança de ares. Foi viver em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), antes de se mudar para o Chile, primeiramente retornando a Goiânia e aqui permanecendo por alguns dias, para verificar que o clima lhe era adverso: ele não conseguiu emprego em jornais, como pretendia, não encontrou espaço nem oxigênio, então decidiu partir.
 
Certa noite, coisa de uns dois dias antes de sua partida, ele apareceu em minha casa e vinha com as suas pastas de poemas debaixo do braço; disse que tinha discutido com seus familiares, mas não dava detalhes, e que ia embora para o Chile. Era noite, ele estava abalado, meio que em estado de choro. Queria que fôssemos beber, e eu bem que teria ido, solidariamente, mas estava mal dos brônquios, tossindo forte e dolorosamente; estava depressivo e sem o mínimo ânimo; disse isso a ele, que se mostrou contrafeito e fez menção de ir embora. Indaguei se ele iria para o hotel, onde costumava pernoitar, no centro de Goiânia —, ele meio que deu a entender que sim, se despediu e se foi. Olhando-o se afastar pela rua, dentro da noite, mortifiquei-me ao sentir o quanto, naquela hora, ele precisava de um amigo. Fiquei doente de alma, por isso.
 
Daí a mais um dia, o poeta me telefonou para se despedir de vez, dizendo que estava de saída e que me escreveria do Chile, como realmente fez, algumas vezes. Não mais o vi, senão morto. Nas cartas, falava de sua vida por lá e me remetia livros seus, publicados em espanhol pelo seu amigo e editor Sergio Ramón Funtealba, com o qual, após a morte de Tagore, eu vinha trocando correspondência, e a quem, por último, enviei de presente quatro livros meus, além de uma longa carta, creio que cerca de quatro laudas, sobre os mesmos, e também falando de Tagore. Como não me veio resposta desta vez, e já se vão alguns anos, me pergunto o que terá havido, se foi extravio de correio ou se o extraviado fui eu, tagarelando — pedante? —, sobre o meu caráter poético e minhas obras imperfeitas. Mais como justificativa do que pedanteria, me parecendo que os poetas, às vezes, se sentem constrangidos por serem poetas no desgraçado mundo de hoje.
 
 O poema “Prólogo” foi declamado por Tagore Biram em Moscou, em 1985, quando lá esteve participando do Festival Internacional da Juventude, promovido por Gorbachev. Declamou-o durante reunião noturna de poetas de várias partes do mundo, ao que se sabe, num teatro grã-fino da cidade — não temos o nome do teatro. O certo é que a empolgada declamação foi simultaneamente traduzida para mais de 50 línguas. De acordo com testemunha ocular goiana, o poeta foi ovacionado de pé, aos brados de “Bravo! Bravo!”, e ninguém menos do que o poeta Ievtuchenco lá estava, na platéia, aplaudindo efusivamente. E o poema foi publicado, no original e em russo, na primeira página do Jornal do Escritor Soviético, do qual Tagore me trouxe um exemplar.
 
Sem dúvida, aquele recital foi uma noite de glória para ele. Imagine-se, com isso, a cara roxa da inveja goiana. Sem falar nas belas soviéticas que, ainda segundo o testemunho, Tagore arranjou e, mesmo sem conhecer o idioma, namorou no Parque Lênin, aos pés da estátua do próprio. Vale lembrar que, em Goiânia, não só por seus modos rebeldes, mas também pelo seu “dom” de conquistador nato, com a lábia poética da facilidade, era dado a  paquerar as namoradas dos outros, enquanto degustava a cerveja paga por eles (risos). Por essas e outras, alguns o tomavam por “persona non grata”.
 
Podem até questionar, em aspectos, a obra poética de Tagore, principalmente acadêmicos obesos e sebosos de presunção, e acadêmicas besuntadas com o cosmético da confraria, mas não podem tirar-lhe os méritos conquistados, ele que chegou onde nenhum outro poeta goiano já esteve, nem mesmos os acadêmicos que o criticavam. E nem lhes conto o que rolou de inveja quando Tagore foi a Moscou; a bile invejosa era visível nas faces de outros poetas, inclusive escritores da “velha guarda”, que se querem eternos mandões da literatura local. Hoje em dia, com Tagore morto, tendem a aparecer certos amigos nunca dantes declarados, daí fico aqui, de longe, só observando, e até consigo rir por dentro. Agora, em Goiás, quando se menciona o nome de Tagore, capta-se algum fingimento no ar, e já não falta oportunistas que, vislumbrando uma oportunidade de aparecer à sombra do falecido, deitam perdigotos sobre as boas qualidades do poeta. Gente fingida.
 
Tagore Biram não morreu nem foi esquecido pelos amigos.
(….)
Segue/Fonte.

Link para o grupo no Facebook.

O poeta e pesquisador Salomão Sousa tem muito mais do que uma notícia de Tagore, fez o verbete Tagore para o site de poesia de Antonio Miranda e a quem interessar possa no seu (dele) próprio, que mantém blog de alto nível. Ver o link para o blog do Salomão.

E para finalizar, uma homenagem de Brasigóis Felício ao poeta morto.

       O enterro do poeta
****Brasigóis Felício
(Ao poeta Tagore Biram,

lembrança e saudades)

Nascido poeta, um rebelde rapsodo,
gato de palácio não foi
pois sendo um homem do povo
lá causaria transtorno:
um animal discordante
entre as vaquinhas de presépio
ou uma voz desafiante
no coro dos contentes.

Porém, quando morto
passou a ser cidadão distinto
acima de toda suspeita:
pranteado por muitos
que trocavam de calçada
para não esbarrar
com o semblante quixotesco

Tendo dado o último suspiro
em terras do Chile,
não foi lá que engoliu
em momento momesco
garrafadas de abandono e bile

Em estado funerário
despido está do abecedário
não ponteia a viola
nem extrai manifestos
das palavras do dicionário

Na condição de defunto
passa a ser visto
como cidadão de respeito
discursos não faltarão
para louvar seus feitos

Em sua paz derradeira
não faltarão avalistas
para o redimir do malfeito
de ter nascido anjo torto
– vaquinhas avacalhadas farão
para pagar seu caixão

Quem não o tenha conhecido
em seus dias combalidos
dirá, ao ver o grande séqüito:
ali vai, à última morada,
um senador da República.
Só se for da republica em que morava
pagando as dormidas com muito custo

Ao contrário do que indica o reboliço
ali vai um morto pobre e onusto
pranteado por muitas viúvas
– que o finado não prestava:
não resistia a um rabo de saia

Não foi filho impródigo da criação:
deixou como herança
alguns livros publicados
e poemas inéditos, que coligia
na diáspora escolhida
– e se chegou causando espanto
é porque só compraram
sua passagem de ida.

Go. 28.09.013

Coda: quem também escreve sobre Tagore é o blogueiro Darwin Rodrigues, no blog Tomecinos. Confira no link – em Espanhol.

Francisco Perna Filho

Francisco (Chico) Perna Filho – doutorando em Letras pela PUC/GO, membro do Grupo Literatura Goyaz.

Poeta Francisco (Chico) Perna Filho

Francisco (Chico) Perna Filho é natural de Miracema do Tocantins – TO. Poeta, contista, cronista  e crítico literário. Mestre em Letras e Lingüística – Estudos Literários – Universidade Federal de Goiás; graduado em Letras Vernáculas – Pontificia   Universidade Católica de Goiás. Ex – Conselheiro e Ex-Vice-Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Tocantins. Autor de livros de poesia e crítica, a saber:
“Refeição” (poesia) Goiânia: Kelps, 2001; “As Mobílias da Tarde” (poesia). Goiânia: Perna e Leite Editores, 2006; “Criação e Vanguarda: Bopp e Barros. (Crítica Literária). Goiânia: Editora da UCG, 2007.  Visgo Ilusório (Poesia). Goiânia: PUCGoiás/Kelps, 2009.
É membro da União Brasileira de Escritores – UBE – Goiás e da Academia Palmense de Letras, cadeira 28.

Capas Livros Chico Perna
Livros do autor na Estante do Beto
O simpático poeta-professor-doutorando passeia sua simplicidade e conhecimento com a humildade que caracteriza os sábios pela bela cidade de Goiânia, tendo retornado de sua temporada no vizinho Tocantins. Um café com o poeta (ou um chopp sempre em companhia de outro bardo, não digital – o poeta Valdivino Braz) é sempre uma agradável aula informal.
Além de ter participado denossa Antologia 2015 - Literatura Goyaz, como convidado especial, Chico Perna 
manntém o belo site Revista Banzeiro Textual. Confiram o link de BANZEIRO.chicoperna1