Talvez seja este o caso…

Fernando Monteiro_Rascunho Afinal

“Os poetas não precisarão participar dessa rodada de desencanto, pois eles já escrevem para um vazio que não é só o das grandes livrarias grosseiras, com sua girândolas de livros de ocasião com capas brilhantes como catarro em parede. Os poetas, como que abençoados por Deus ou pelo diabo, estão escrevendo para leitores tão escassos (há muitíssimo tempo), que se tornaram monges trapistas da literatura, escrevendo em monastérios transformados nos palácios da mente que os libertam de escrever para quem já não possui o código da Poesia, a tábua de decifração (e salvação) do verso que foi carne, no Princípio etc.
“Enfim, os poetas estão libertados pelo silêncio que os cerca – enquanto aqui se convocam, sim, principalmente os praticantes da ficção, nesta hora “vigésima quinta” por obra e graça, em parte, das editoras voltadas, nos últimos anos, quase exclusivamente para aquilo que passou a se entender como sucessos

(Fernando Monteiro) in Rascunho, maio 2017, p.23.
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Destino palavra – análise crítica (1)

O VIAJANTE ADALBERTO DE QUEIROZ:
“DESTINO PALAVRA”

                                                                                                                   Por Ercília Macedo-Eckel*

Esse menestrel é um “caminhante” atrás do conhecimento, do Verbo, do eixo do universo, como Dante Alighieri (Virgílio e Beatriz), na Divina Comédia, ou como Miguel de Cervantes, na citação de Dom Quixote, em que se misturam o real e o imaginário. Predominantemente, porém, o poeta em Adalberto busca o concreto (material) e o abstrato (espiritual), a verdade. E, algumas vezes, o sonho: nu desde sempre e já no Paraíso – com os olhos da alma nos vemos e, quanto mais nus, mais nós mesmos  (p.24). “Eis-me aqui” (…) “porque só há eu e tu” (p.28). Segundo C.D.A. essa viagem (da nudez) para dentro de nós mesmos é a mais difícil das viagens.

         Entretanto o poeta quer retornar a si mesmo, quer de volta tudo o que lhe aconteceu de Cádiz à Vila Jaiara, da Vila Jaiara aos caminhos de hoje. E quer para a frente tudo o que ainda lhe poderá acontecer. Seu destino é aceitar a identidade entre o eu e a situação do mundo. Refiro-me ao “amor fati” de Nietzsche – da grandeza do homem de retornar-se a si mesmo. Refiro-me também à repetição do ser-aí que já foi, de Heidegger. E como o poeta faz ou fará isso? Por meio da palavra ( do logos, do Verbo) que é a manifestação da inteligência, da luz ou das trevas do ser. Sem palavra não há conversa, não há texto, nem criação: Fiat lux! 

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Ercília Macedo-Eckel durante o lançamento de Destino Palavra, Ube, 

         A primeira palavra: Passado. “Viajante cá foi feito mago de Oz” (p. 13). “Sou o que vi – / um pobre diabo da Vila Jaiara// Eu sou esse menino no corpo do velho d’agora (…), sonhando palácios da lua, luando neon multicor” (p. 15). Porém o Tejo desse garoto são o ribeirão João Leite e o córrego Botafogo.

         Em sua viagem poética, aqui e ali, há uma “gare” de metapoesia (p. 18, 25, 29-30, 50, 51, 62). É a poesia falando da própria poesia e de seu mister, no qual poeta/escritor e leitor estão em “similar mistério”: “O que lê pode ser da escrita/ a parteira consciência (p. 25). Vez ou outra a poesia faz as malas e foge, que nem “Albertina a fugitiva”, e diz: Fui! E “o mundo fica mais vazio” (p. 18-9). Então o poeta viajante tem sede da água limpa (p. 32); aquela que vivifica, purifica, regenera e restabelece um novo estado e a (re)criação desse bardo que mais adiante se deita com a água para epifania e  ressurreição (p. 60-1).

         A Parte II do opúsculo “Destino Palavra” começa com a Anti-lira dos Cinquent’anos. Uma lira também “sem cordas”, como declara Álvares de Azevedo no prefácio da 1ª edição de sua Lira dos Vinte Anos (1853, postumamente). Nessa Anti-lira impera o grisalho, entre o Bem e o Mal, “o mundo insano” na memória da avó de “noventa e tantos…” (p.37). Azevedo herdara, fundamentado em uma imensidão de leituras (como o poeta Adalberto), o byronismo do poeta britânico, Lord Byron, e o baudelaireanismo do poeta e teórico da arte francesa, Charles Baudelaire. Ambos presentes, apropriados ou intertextualizados, em vários versos de “Destino Palavra”. Entre outras características desses poetas, temos: pessimismo, desilusão e temas sobre morte, ou afastamento da realidade, por intermédio do sonho e da fantasia, além da exposição do conflito poético-existencial.

         Assim, ao final da Anti-lira dos Cinquent’anos, o poeta Adalberto recomenda: “portanto, d’antes que a morte/ mostre as garras: escreva versos” (p. 38). Antes que seja tarde!

         Depois, na janela do navio, esse poeta viajante descansa suas penas, qual “pássaro alado”, entoando seu triste canto, “o corrosivo da memória”, desejoso de singrar o jade imenso dos imortais. Daquela janela, da única paisagem ambicionada, vêm a luz e o sol que ajudam o poeta a vencer as forças sinistras, capazes de fundear-lhe a alma (p. 34-40).

         Dessa forma, nós, bardo e leitores, buscamos a salvação, o domínio das trevas, das águas e do espaço cuja paisagem se dilata em vários sentidos nas páginas seguintes. Destino? Palavra. Emoção de escrever difícil ou claramente uma página repleta de luz, a sede da ausência saciada pela presença do Outro. Ainda que seja o verso alheio (p.49), ressoando em coro, voando pelo espaço do Senhor (p.50), até chegar às perguntas poetadas por Jorge de Lima: _Queres ler o quê? _Entendes tu o que lês? (p. 51-2)

         Então vem a dor do entendimento e da consciência, dor indescritível, “na solidão do ausente”, no fingimento do que não ama, do que não sente, à moda de Camões (p.52 e 57). Ou de Baudelaire: …”dor que sendo alheia/ é também minha e sua, hipócrita leitor, pois tudo não/ passa, meu irmão, meu semelhante/ ‘Débâcle’ de poesia” (p. 58).

         Mas também, como em toda viagem, sói acontecer surpresa. Então a palavra do poeta teve como destino um anti-soneto, melhor dizendo, um metassoneto, com as narinas acima da “massa ignara”, em bem “Traduzir-se” uma parte do poeta daquela outra parte (que) se sabe de repente, gullarmente, “em quatorze versos” (p.62). E, adiante (p. 64-5),  o bardo ora em busca da alma, à caça de tesouros indecifráveis, como quem cata feijão, cabralmente, no garimpo de versos que valem a pena, ou como um cavaleiro, representante restaurativo da poesia do Graal, inspirada na busca moderna do eu. Considere-se, ainda, a decifração entre o bem e o mal, desde o Paraíso, lá no início, até o ingresso nos mistérios da alma de cada filósofo, até os dias de hoje.

         Durante a leitura de Destino Palavra, percebe-se que aquele que fala nos poemas constrói um mosaico de falas poéticas, ao apropriar-se dos versos dos grandes poetas do mundo, bem como dos nacionais e goianos. E, dessa forma, consegue expandir seu mapa de viajante, sua geografia literária para além do cerrado e  savana locais. Pois Adalberto-poeta sabe tudo de viajante, de “caminhante”.  Na Parte I (p. 24, Nu) e na Parte II (p. 75, A Última Palavra), cita Georges Bernanos, escritor e jornalista francês, que se mudou trinta e duas vezes durante a vida e que chegou a se exilar no Brasil.

         Finalmente, percebe-se que o sagrado vence o profano, em vários poemas e na “Última Palavra”, na “gare”, no último ponto da estação, ante a Morte, a “inesperada das gentes”, de Manuel Bandeira (p. 75).

         Esse sagrado poético (p. 22, 23, 32, 64, 69-71, 75) pode surgir gradualmente, ou inesperadamente do mundo profano (feiticeiro) para o sagrado (santo), na busca de equilíbrio, do limite entre o temor e a sabedoria. Saindo, assim, do profano, da glória efêmera, maculada, impura, baixa, para entrar nas energias puras do sagrado, como fizera Santa Teresa de Ávila (com seus êxtases), cantada nas canções espanholas 1 e 2 (p.66-71).

         Porém, para entrar em contato com o divino, é necessário que o viajante se desfaça das vestes antigas, profanas. Melhor seria se ficasse nu, a fim de avizinhar-se do mundo dos deuses, para além da razão: ” só com a visão do Tudo – Nada” (p.70). E fizesse a pergunta: Qual a última palavra a ser dita, ante a “inesperada das gentes”?
./.

(*) Ercília Macedo-Eckel é Mestra em Letras e Linguística – Literatura Brasileira pela UFG (1994). Autora, entre outros dos seguintes livros: “Um contista goiano” (1968); “Maíra – reescrita e dessacralização do mito” (2000) e “Quarta Dimensão: o tempo da palavra e outros tempos: poemas” (2005). Patrona e titular da cadeira nº 10 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Website de Ercília Macedo-Eckel

         

          

         

         

Emily Dickinson, P. Henriques Britto e o leitor

P.H.Britto & Emily Dickinson (Parte II).

Adalberto de Queiroz

Um poema de Emily Dickinson e duas traduções de Paulo Henriques Britto (2)

NO POST anterior, trouxemos o original do poema #185 (da coletânea de poemas de Emily Dickinson, por Johnson*) e duas traduções de Paulo Henriques Britto.

Nosso desafio ao leitor era o de escolher entre “A” e “B”.

O tradutor o fez. Saiba como, lendo antes o processo que levou Britto às duas versões citadas. As anotações estão no livro “A tradução literária”, da editora Civilização Brasileira, 1ª. ed., 2012.

Inicialmente, Britto constata que “no campo da tradução, poucos temas têm sido tão discutidos, e têm levado à adoção de posturas tão radicalmente opostas, quanto a tradução de poesia”. E por quê?
Embora o interesse teórico seja “inversamente  proporcional ao volume de traduções de poesia efetivamente publicadas”, Britto alinha algumas verdades sobre o contexto brasileiro:

i. “Num extremo, temos aqueles que defendem a absoluta impossibilidade de se…

Ver o post original 863 mais palavras

Wagner Schadeck: um “Achado”

Perfil Wagner SchadeckWAGNER Schadeck (WS) é dessas pessoas raras hoje em dia. Professor, editor, tradutor e poeta, Schadeck nasceu em Curitiba, onde vive. Colabora com os jornais literários “Cândido”, “Rascunho” e a “Revista Brasileira” (ABL).

Como tradutor, publicou a Ode sobre a Melancolia, de John Keats, pela Revista Poesia Sempre: 19, Número 37, Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, em 2013. Como editor, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera, em 2015. Sua editora é um exemplo de resgate da grande e boa poesia do mundo, tão esquecida pelo curriculum de nossas escolas e pelo nivelamento ‘por baixo’ de muitos multiplicadores culturais no país. Wagner, ao contrário, puxa p’ra cima: Byron, Baudelaire, Keats ao lado de Gonçalves Dias e B. Lopes e, quem sabe, nós fãs de Tasso da Silveira ainda o vejamos em edição que respeite o grande poeta Curitibano e católico – que ainda não teve o que Anticítera pode prover ao leitor exigente.

O talento de Schadeck não lhe furtou a humildade. Participa ativamente de nosso grupo Literatura Goyaz, além de cuidar de outros tantos grupos dedicados à difusão da boa poesia e da página de sua Editora – a Anticítera – conheça Católogo.

O ensaio que me chamou a atenção para publicar este perfil do amigo-confrade Wagner está no link abaixo. O título deste post-resumo e apresentação do múltiplo confrade resume tudo – Wagner Schadeck é, no mundo cultural, um verdadeiro achado: eis um agente da Cultura, um escritor e uma pessoa para se ler, reler, com quem aprender e seguir caminhos a seu (dele) lado.

Como no ensaio brilhante de hoje – O rosto de Beatriz, por W. Schadeck – um “Achado” em mãos do poeta alemão J.W. Goethe [em um de seus poemas circunstanciais] pode muito esclarecer, também o valor de “achar” o Wagner, fruir sua criação, dar atenção a sua “obra-em-progresso” como um bom sinal do tempo não dominado por ideologias vãs. Fixo-me, sobretudo, em seu esforço de busca da erudição que bem ouro pode valer ao poeta em busca de um caminho de expressão na floresta de signos, que se sinta mais seguro no cipoal desse “conjunto de símbolos” (Eric Voegelin) que é o mundo cultural, às vezes deturpado por “verdades” ideológicas passageiras.

WagnerSchadeck_ilust.EnsaioGoethe
“Na antiguidade, tal como o vinho, a Poesia era um presente dos deuses. O vinho trazia o esquecimento; a Poesia, a memória.” (W.S.)

 
3 POEMAS de Wagner Schadeck


DÍVIDA

O Tempo, terrível credor,
virá bater à nossa porta;
austero, deve nos propor
o saldo de uma conta morta.

Somam-se idades, à medida
que os anos devem diminuir.
Somos inquilinos em vida,
e a nossa casa há de ruir.


PENÉLOPE
(À memória de minha avó)

Não há retorno. Já faz muitos anos.
Mesmo assim inda aguardas. Tanto fias
premendo a vista em pontos venezianos
que já trocas as noites pelos dias.

Ele não voltará. Nas manhãs frias,
desfia insônias pregadas nos panos.
Dele ficaram gestos e manias
que a todos sobressaem desenganos.

E um sorriso em teu rosto se abre em rugas
como veludo, enquanto ao sol alugas
a memória. Mas já derrete a neve

de teu cabelo. As Horas põem defeito
em tua costura, agulhas em teu peito.
O tempo é dor. A vida passa breve.

 


APARTAMENTO

Um homem sonha na parede.
Fechou-se. E sem lançar recado,
Habita o nada. O emparedado
Não guarda fome, frio, sede.

Emudeceu contra o barulho
Do mundo. Não sorri, não chora.
Despreza tudo, tudo ignora.
Medra em si mesmo a flor do orgulho.

Esconderá medo? Tampouco
Importam-lhe agravo, ruína,
Recosto de mendigo, urina
De cães, meditação de louco…

Para que se sondar sem termo?
Em si guardado, o que procura?
Nesse edifício de amargura
Seu espírito aguarda no ermo.

De quem trará lembrança vaga
na sua memória enquanto dorme?
O sol que lhe projeta a enorme
sombra à frente também a apaga.

 

TAGORE BIRAM (1958-1998)

Notícia sobre TAGORE BIRAM.
********Por Salomão Sousa*.

Tagore Biram era pseudônimo de Ubiratan Moreira, [nome escolhido] em homenagem ao poeta indiano Rabindranath Tagore. Ubiratan Moreira (Tagore Biram) nasceu em 6 de janeiro de 1958, em Olho D´Àgua, antigo distrito de Anicuns (Goiás) e hoje município de Americano do Brasil. Sua estréia literária foi em 1981 com o livro Flauta Noturna. Em 1985, publicou Poemas do Amor e da Ausência e viajou para Moscou, como delegado do Festival Mundial da Juventude. Na União Soviética, participou do Encontro Internacional de Jovens Escritores. Fez recitais e falou sobre o Brasil. Teve poemas seus traduzidos para o russo e publicados em Moscou. Em 1986, criou e presidiu o Comitê Pablo Neruda de Solidariedade ao Povo Chileno. Em 1987, conquistou, em Goiânia, o Prêmio Cora Coralina de Poesia, com o livro O Anjo Desafinado, seu divisor de águas poéticas. Na década de 1990, transferiu-se para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde viveu por vários anos e trabalhou como editor cultural (Caderno B, do Jornal do Brasil Central) e redator-criador em agências de publicidade. Conheceu o poeta pantaneiro Manoel de Barros e dele se tornou amigo.
Em 1996, mudou-se para o Chile e ganhou o prêmio literário Cidade de Concepción, publicou os livros El Enderezador de Vientos e Poesia Pasajera. O poeta rebelde e saudoso de casa faleceu em Tirúa (Chile), em 13 de junho de 1998, dez anos depois da publicação de seu segundo livro, O Anjo Desafinado. Em Campo Grande (MS), o auditório na sede da TV Educativa foi inaugurado com o nome de Tagore Biram. Em Tirúa (Chile) um centro cultural também leva seu nome. Quando morreu em 1998, Tagore Biram deixou, inéditos, os livros, Muro de Berlim e Poemas de Santiago, dos quais, até o momento, não se sabe o paradeiro. (Valdivino Braz).


“Se fosse hoje, eu não teria deixado Tagore Biram cair tão facilmente. Mas nunca conseguimos impedir uma queda, pois, quando vamos notar, a derrota já alcançou a todos nós. Mas a história humana carece de algumas quedas precoces para termos presentes a nossa fragilidade. Também quanto mais intenso o fogo mais rápido o destroçar da madeira. E ele que seria uma renovação total da poesia goiana! Dois livros que editou foram suficientes para deixar um clarão intenso. Dormi uma vez no apartamento dele em Goiânia, e umas duas noites ele passou em minha casa. É do poeta Valdivino Braz — seu mais fiel amigo, tanto em vida como de sua memória — o texto que o apresenta, publicado recentemente no Jornal Opção.
ψ/ψ

De minha parte, conheci o Tagore no início dos anos ’80, do séc. xx. Éramos todos de esquerda – ele mais; todos contestadores – ele mais; éramos todos linguarudos – ele mais; éramos um tantinho desmiolados – ele mais; Tagore sempre arrumava um jeito de entrar numa discussão que, dependendo do teor etílico, era uma equação de n-incógnitas a ser resolvida, até por volta de 5h da matina. Foi sempre gentil comigo, mas sempre me criticou os modos burgueses. Tenho dele uma boa lembrança. Não vi o nariz do poeta morto. Ainda bem, pois, que assim me resta o sorriso generoso que guardo em minha memória, malgrado os rumos diversos que nossas vidas tomaram…

Abaixo, transcrevo dois poemas do poeta morto: Palavra e “El rio Tirúa”, este que se encontra numa página chilena, e do qual não se conhece versão em português. Talvez tenha sido escrito no período final de sua vida, quando ele morava naquele país. (com textos de Salomão Sousa e pequeno molho meu). Uma nota sobre um colega de trabalho, da tempora em Mato Grosso do Sul, vale a pena ser lido para que se confirme que foi o alcoolismo, provavelmente, o que levou à morte um poeta de grande potencial tão jovem (40 anos!). Veja o link para o blog Arquivos Críticos, do RAVEL, colega de jornalismo de Tagore, em JbC, Jornal do Brasil Central, onde o poeta foi Editor.
++++
A PALAVRA
****Tagore Biram
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De “Flauta Noturna” por Tagore Biram, Fundo de Cultura Goiás -Cerne, 1981, p.71. Ube Goiás

 

 

 


El rio Tirúa
*******Por Tagore Biram*

Qué trágica es la vida de los ríos
Qué trágica es la vida de los manantiales
Con su voz mineral
Llena de peces y piedras
Y también una mirada de esperanza.

Los ríos arrepentidos
Que viajan tantas vueltas entre selvas,
Costas montañosas,
Para volver sin cansancio
A su fuente original.

Y hay ríos tranquilos y sinuosos,
Ríos tranquilos y sinuosos
como serpientes,
silenciosos ríos,
ríos indiferentes a los crímenes de los hombres.

Qué resignada es la vida de estas venas,
Estas venas que sangran a la tierra
Y alimentan de papas los sembrados,
De maíz, amor, vino,
Todos los elementos posibles.

La voz musical de esta agua,
Que el hombre insiste en callar para siempre.

Dicen que hay ríos que se lamentan.
Sí, hay ríos que se lamentan.

He sentido el corazón
Que agota sus últimas lágrimas,
Las últimas de un río sediento.

Estos ríos generosos no se lamentan por sí,
Sino que por sus propios asesinos.

He visto ríos y lagos,
Ríos y lagos cadavéricos,
Ríos que se cansaron de ser ríos,
Ríos que se fueron al exilio,
Ríos que se escondieron bajo la tierra,

Aguas que debieron abandonar a sus hijos.

Sí,
He conocido ríos que volvieron a ser nubes,
Manantiales de aguas que no volvieron nunca más.

Se fueron para siempre estas aguas,
Estas aguas que persisten en los ojos,
Estas aguas, estas aguas.

+++++
(*) Fonte: Educarchile

Amizades e polêmicas: Goiânia, Rússia, Chile…

O poeta Tagore Biram viveu os derradeiros dias de uma curta existência no Chile. Segundo o jornalista e poeta Valdivino Braz, Tagore morreu com 40 anos de idade, em 13 junho de 1998, na cidade de Tirúa, no Chile, país onde ele residia desde 1996.

Como amigo do poeta morto ainda moço, Valdivino num estilo que lhe é próprio escreveu para a Revista Bula quando esta dedicava-se a mais do que entretenimento de massa (e em número de acessos!) um artigo Braziano…Abaixo, alguns trechos e o link da fonte na última linha da transcrição:

Tagore Biram manda lembranças
Por Valdivino Braz

O poema “Prólogo”, de Tagore Biram, publicado — certamente por Carlos Willian, em atendimento à sugestão de Lauro Marques — aqui nos comentários da Bula (edição 204), encontra-se, em russo e português, no livro “O anjo desafinado”, de autoria dele, Tagore. O livro foi o primeiro a ser premiado, em 1987, pela Bolsa de Publicações Cora Coralina, então criada pelo governo de Goiás. Referido poema foi por mim publicado aqui mesmo, na Bula, em 2007, como parte do artigo “Sobre Tagore Biram”, redigido alusivamente aos nove anos de sua morte, ocorrida em 13 junho de 1998, na cidade de Tirúa, no Chile, país onde ele residia desde 1996. O poeta morreu aos 40 anos de idade. Consta que em Tirúa um centro cultural leva seu nome, homenagem de amigos que por lá cultivava.

 
Sabe-se que Tagore deixou no Chile vários amigos, que os tinha também em Goiás, os que o conheciam mais a fundo, assim como tinha os inimigos, muitos dos quais, de público, ele mandava tomar no curió ou então à puta que pariu. Com Tagore não tinha meios-termos. Tirado do sério, quando se sentia ofendido ou humilhado, dava o troco na hora, e proferia seu revide com palavras nuas e cruas, mesmo na presença de distintas e emperucadas madames.  
 
Com o tempo, o poeta amadureceu e refinou um pouco seus modos, tornou-se verbalmente mais comedido, mais sociável no trato com as pessoas, inclusive com os garçons dos botecos — por vezes era meio ríspido com eles, e se melhorou neste aspecto, creio que um pouco foi por instância minha, que sempre o repreendia, lembrando que também fui garçom e sei bem o que é esse negócio de se dizer que o freguês sempre tem razão. Parece que ter deixado Goiânia o beneficiou neste sentido da amabilidade. Mudança de ares. Foi viver em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), antes de se mudar para o Chile, primeiramente retornando a Goiânia e aqui permanecendo por alguns dias, para verificar que o clima lhe era adverso: ele não conseguiu emprego em jornais, como pretendia, não encontrou espaço nem oxigênio, então decidiu partir.
 
Certa noite, coisa de uns dois dias antes de sua partida, ele apareceu em minha casa e vinha com as suas pastas de poemas debaixo do braço; disse que tinha discutido com seus familiares, mas não dava detalhes, e que ia embora para o Chile. Era noite, ele estava abalado, meio que em estado de choro. Queria que fôssemos beber, e eu bem que teria ido, solidariamente, mas estava mal dos brônquios, tossindo forte e dolorosamente; estava depressivo e sem o mínimo ânimo; disse isso a ele, que se mostrou contrafeito e fez menção de ir embora. Indaguei se ele iria para o hotel, onde costumava pernoitar, no centro de Goiânia —, ele meio que deu a entender que sim, se despediu e se foi. Olhando-o se afastar pela rua, dentro da noite, mortifiquei-me ao sentir o quanto, naquela hora, ele precisava de um amigo. Fiquei doente de alma, por isso.
 
Daí a mais um dia, o poeta me telefonou para se despedir de vez, dizendo que estava de saída e que me escreveria do Chile, como realmente fez, algumas vezes. Não mais o vi, senão morto. Nas cartas, falava de sua vida por lá e me remetia livros seus, publicados em espanhol pelo seu amigo e editor Sergio Ramón Funtealba, com o qual, após a morte de Tagore, eu vinha trocando correspondência, e a quem, por último, enviei de presente quatro livros meus, além de uma longa carta, creio que cerca de quatro laudas, sobre os mesmos, e também falando de Tagore. Como não me veio resposta desta vez, e já se vão alguns anos, me pergunto o que terá havido, se foi extravio de correio ou se o extraviado fui eu, tagarelando — pedante? —, sobre o meu caráter poético e minhas obras imperfeitas. Mais como justificativa do que pedanteria, me parecendo que os poetas, às vezes, se sentem constrangidos por serem poetas no desgraçado mundo de hoje.
 
 O poema “Prólogo” foi declamado por Tagore Biram em Moscou, em 1985, quando lá esteve participando do Festival Internacional da Juventude, promovido por Gorbachev. Declamou-o durante reunião noturna de poetas de várias partes do mundo, ao que se sabe, num teatro grã-fino da cidade — não temos o nome do teatro. O certo é que a empolgada declamação foi simultaneamente traduzida para mais de 50 línguas. De acordo com testemunha ocular goiana, o poeta foi ovacionado de pé, aos brados de “Bravo! Bravo!”, e ninguém menos do que o poeta Ievtuchenco lá estava, na platéia, aplaudindo efusivamente. E o poema foi publicado, no original e em russo, na primeira página do Jornal do Escritor Soviético, do qual Tagore me trouxe um exemplar.
 
Sem dúvida, aquele recital foi uma noite de glória para ele. Imagine-se, com isso, a cara roxa da inveja goiana. Sem falar nas belas soviéticas que, ainda segundo o testemunho, Tagore arranjou e, mesmo sem conhecer o idioma, namorou no Parque Lênin, aos pés da estátua do próprio. Vale lembrar que, em Goiânia, não só por seus modos rebeldes, mas também pelo seu “dom” de conquistador nato, com a lábia poética da facilidade, era dado a  paquerar as namoradas dos outros, enquanto degustava a cerveja paga por eles (risos). Por essas e outras, alguns o tomavam por “persona non grata”.
 
Podem até questionar, em aspectos, a obra poética de Tagore, principalmente acadêmicos obesos e sebosos de presunção, e acadêmicas besuntadas com o cosmético da confraria, mas não podem tirar-lhe os méritos conquistados, ele que chegou onde nenhum outro poeta goiano já esteve, nem mesmos os acadêmicos que o criticavam. E nem lhes conto o que rolou de inveja quando Tagore foi a Moscou; a bile invejosa era visível nas faces de outros poetas, inclusive escritores da “velha guarda”, que se querem eternos mandões da literatura local. Hoje em dia, com Tagore morto, tendem a aparecer certos amigos nunca dantes declarados, daí fico aqui, de longe, só observando, e até consigo rir por dentro. Agora, em Goiás, quando se menciona o nome de Tagore, capta-se algum fingimento no ar, e já não falta oportunistas que, vislumbrando uma oportunidade de aparecer à sombra do falecido, deitam perdigotos sobre as boas qualidades do poeta. Gente fingida.
 
Tagore Biram não morreu nem foi esquecido pelos amigos.
(….)
Segue/Fonte.

Link para o grupo no Facebook.

O poeta e pesquisador Salomão Sousa tem muito mais do que uma notícia de Tagore, fez o verbete Tagore para o site de poesia de Antonio Miranda e a quem interessar possa no seu (dele) próprio, que mantém blog de alto nível. Ver o link para o blog do Salomão.

E para finalizar, uma homenagem de Brasigóis Felício ao poeta morto.

       O enterro do poeta
****Brasigóis Felício
(Ao poeta Tagore Biram,

lembrança e saudades)

Nascido poeta, um rebelde rapsodo,
gato de palácio não foi
pois sendo um homem do povo
lá causaria transtorno:
um animal discordante
entre as vaquinhas de presépio
ou uma voz desafiante
no coro dos contentes.

Porém, quando morto
passou a ser cidadão distinto
acima de toda suspeita:
pranteado por muitos
que trocavam de calçada
para não esbarrar
com o semblante quixotesco

Tendo dado o último suspiro
em terras do Chile,
não foi lá que engoliu
em momento momesco
garrafadas de abandono e bile

Em estado funerário
despido está do abecedário
não ponteia a viola
nem extrai manifestos
das palavras do dicionário

Na condição de defunto
passa a ser visto
como cidadão de respeito
discursos não faltarão
para louvar seus feitos

Em sua paz derradeira
não faltarão avalistas
para o redimir do malfeito
de ter nascido anjo torto
– vaquinhas avacalhadas farão
para pagar seu caixão

Quem não o tenha conhecido
em seus dias combalidos
dirá, ao ver o grande séqüito:
ali vai, à última morada,
um senador da República.
Só se for da republica em que morava
pagando as dormidas com muito custo

Ao contrário do que indica o reboliço
ali vai um morto pobre e onusto
pranteado por muitas viúvas
– que o finado não prestava:
não resistia a um rabo de saia

Não foi filho impródigo da criação:
deixou como herança
alguns livros publicados
e poemas inéditos, que coligia
na diáspora escolhida
– e se chegou causando espanto
é porque só compraram
sua passagem de ida.

Go. 28.09.013

Coda: quem também escreve sobre Tagore é o blogueiro Darwin Rodrigues, no blog Tomecinos. Confira no link – em Espanhol.

Francisco Perna Filho

Francisco (Chico) Perna Filho – doutorando em Letras pela PUC/GO, membro do Grupo Literatura Goyaz.

Poeta Francisco (Chico) Perna Filho

Francisco (Chico) Perna Filho é natural de Miracema do Tocantins – TO. Poeta, contista, cronista  e crítico literário. Mestre em Letras e Lingüística – Estudos Literários – Universidade Federal de Goiás; graduado em Letras Vernáculas – Pontificia   Universidade Católica de Goiás. Ex – Conselheiro e Ex-Vice-Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Tocantins. Autor de livros de poesia e crítica, a saber:
“Refeição” (poesia) Goiânia: Kelps, 2001; “As Mobílias da Tarde” (poesia). Goiânia: Perna e Leite Editores, 2006; “Criação e Vanguarda: Bopp e Barros. (Crítica Literária). Goiânia: Editora da UCG, 2007.  Visgo Ilusório (Poesia). Goiânia: PUCGoiás/Kelps, 2009.
É membro da União Brasileira de Escritores – UBE – Goiás e da Academia Palmense de Letras, cadeira 28.

Capas Livros Chico Perna
Livros do autor na Estante do Beto
O simpático poeta-professor-doutorando passeia sua simplicidade e conhecimento com a humildade que caracteriza os sábios pela bela cidade de Goiânia, tendo retornado de sua temporada no vizinho Tocantins. Um café com o poeta (ou um chopp sempre em companhia de outro bardo, não digital – o poeta Valdivino Braz) é sempre uma agradável aula informal.
Além de ter participado denossa Antologia 2015 - Literatura Goyaz, como convidado especial, Chico Perna 
manntém o belo site Revista Banzeiro Textual. Confiram o link de BANZEIRO.chicoperna1